{"id":1422,"date":"1985-12-01T18:04:41","date_gmt":"1985-12-01T18:04:41","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:8888\/wordpress\/?p=1422"},"modified":"2022-03-22T18:37:04","modified_gmt":"2022-03-22T18:37:04","slug":"geopolitica-latino-americana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/?p=1422","title":{"rendered":"Geopol\u00edtica latino-americana"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/images-edited.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1820\" width=\"745\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\">Fuente: Arquivo Pessoal de Marini depositado no Programa de Estudos de Am\u00e9rica Latina e Caribe-Universidade do Estado do Rio de Janeiro, ca. 1985.<\/mark><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-text-color has-background has-vivid-red-background-color has-vivid-red-color\"\/>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\"><li>A geopol\u00edtica, isto \u00e9, a pol\u00edtica internacional pensada a partir de determina\u00e7\u00f5es geogr\u00e1ficas, \u00e9 uma consequ\u00eancia da a\u00e7\u00e3o de tr\u00eas fatores hist\u00f3ricos: a) a exist\u00eancia de Estados nacionais surgidos da divis\u00e3o da sociedade em classes e das rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o e subordina\u00e7\u00e3o que entre elas se estabelece; b) o desenvolvimento desigual de economias nacionais, propiciado pela expans\u00e3o mundial do capitalismo, e das formas de explora\u00e7\u00e3o que isso cria, e c) a formula\u00e7\u00e3o de projetos de domina\u00e7\u00e3o por parte de um Estado em rela\u00e7\u00e3o aos outros. Por isto mesmo, a geopol\u00edtica informa as rela\u00e7\u00f5es internacionais do mundo capitalista desde a sua origem e encontra sua formula\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica plena, enquanto teoria e doutrina, na Alemanha do s\u00e9culo XIX, onde um desenvolvimento capitalista tardio p\u00f4s o pa\u00eds interessado em condi\u00e7\u00f5es desfavor\u00e1veis no plano internacional, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s na\u00e7\u00f5es que o haviam precedido.<\/li><li>No curso da segunda guerra mundial, a geopol\u00edtica converteu-se num dos princ\u00edpios reitores da pol\u00edtica exterior norte-americana. I\u00e7ado \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de pot\u00eancia capitalista hegem\u00f4nica e disfrutando [sic] no plano internacional de uma posi\u00e7\u00e3o s\u00f3 compar\u00e1vel \u00e0 da Inglaterra entre 1860 e 1880, Estados Unidos recorre a ela, ao findar a guerra, para conformar sua vis\u00e3o do mundo e tra\u00e7ar sua estrat\u00e9gia de domina\u00e7\u00e3o mundial. Essa vis\u00e3o destaca, em primeiro plano, a exist\u00eancia de dois blocos pol\u00edticos conflitantes, fundados em sistemas econ\u00f4micos antag\u00f4nicos, liderados respectivamente por Estados Unidos e a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, que tendem \u00e0 domina\u00e7\u00e3o exclusiva e sup\u00f5em, por isso mesmo, cada um de seu lado, o aniquilamento do outro. O fato de que formule sua diplomacia a partir de uma perspectiva militar n\u00e3o s\u00f3 indica o alto grau de agressividade do imperialismo norte-americano, como tamb\u00e9m determina seu processo de desdobramento no tempo, levando essa diplomacia, em fun\u00e7\u00e3o da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, \u00e0 guerra fria, depois \u00e0 distens\u00e3o e, finalmente, \u00e0 pol\u00edtica de paz com for\u00e7a que a caracteriza hoje.<\/li><li>A geopol\u00edtica chega \u00e0 Am\u00e9rica Latina na esteira da crescente influ\u00eancia que exercem os Estados Unidos sobre uma rama especial dos Estados da regi\u00e3o \u2013as For\u00e7as Armadas\u2013 a partir de acordos bilaterais de coopera\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e de programas de forma\u00e7\u00e3o de quadros, os quais se desenvolvem a partir da segunda guerra e se generalizam nos anos 60. Nesse momento, a radicaliza\u00e7\u00e3o dos movimentos de libera\u00e7\u00e3o nacional que ocorrem no Terceiro Mundo e o apoio que come\u00e7a a dar-lhes a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica levam \u00e0 revis\u00e3o da estrat\u00e9gia norte-americana: esta passa a um segundo plano a ideia de uma confronta\u00e7\u00e3o direta com a URSS e p\u00f5e maior \u00eanfase na disputa palmo a palmo de zonas de influ\u00eancia. A revis\u00e3o norte-americana, que come\u00e7a a gestar-se em c\u00edrculos militares e civis desde o fim da guerra da Coreia, imp\u00f5e-se ao assumir o governo de John F. Kennedy. Ela implica a militariza\u00e7\u00e3o total da diplomacia norte-americana, que, agora, n\u00e3o s\u00f3 constr\u00f3i sua vis\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es internacionais a partir de uma perspectiva militar, mas tamb\u00e9m estende o enfoque militar \u00e0s rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas internas dos diferentes pa\u00edses, atrav\u00e9s da doutrina da contrainsurg\u00eancia.<\/li><li>Surgida de elabora\u00e7\u00f5es doutrin\u00e1rias dos militares ingleses e franceses em suas guerras coloniais, no ap\u00f3s-guerra, a doutrina da contrainsurg\u00eancia \u00e9, basicamente, isso: um enfoque militar da pol\u00edtica. Qualquer movimento de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 domina\u00e7\u00e3o vigente \u00e9 visto, nessa perspectiva, como amea\u00e7a a ser suprimida mediante o uso da for\u00e7a. O jogo pol\u00edtico, a dial\u00e9tica governo-oposi\u00e7\u00e3o, a altern\u00e2ncia de for\u00e7as no poder ficam, pois, exclu\u00eddas e, em seu lugar, a partir do conceito de&nbsp;<em>inimigo interno<\/em>, a pol\u00edtica \u00e9 substitu\u00edda pela guerra. No contexto da geopol\u00edtica norte-americana, esse inimigo interno \u00e9 simples ponta de lan\u00e7a nacional do bloco de for\u00e7as antag\u00f4nico e os processos pol\u00edticos nos pa\u00edses do Terceiro Mundo se reduzem a guerras internas, que n\u00e3o s\u00e3o mais que aspectos da guerra total que, no plano mundial, os Estados Unidos travam contra a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<\/li><li>Se, nos Estados Unidos, a contrainsurg\u00eancia \u00e9 um produto da geopol\u00edtica, na Am\u00e9rica Latina ocorre o inverso: \u00e9 a ado\u00e7\u00e3o da doutrina da contrainsurg\u00eancia pelos militares e, logo, pela classe dominante que leva a geopol\u00edtica a ocupar lugar de destaque na pol\u00edtica internacional dos Estados da regi\u00e3o e nos seus projetos de fortalecimento nacional. \u00c9 verdade que, desde sua forma\u00e7\u00e3o e pelas raz\u00f5es gerais que indiquei antes, as quais estendem sua validez ao per\u00edodo colonial, as rela\u00e7\u00f5es entre os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina sofriam a influ\u00eancia de determina\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas. Isso foi sobretudo certo para aqueles que apresentaram um desenvolvimento estatal mais precoce, em particular o Chile, o Brasil e a Argentina, chegando a ter import\u00e2ncia decisiva para os dois \u00faltimos, por fatores hist\u00f3ricos, econ\u00f4micos e culturais. Sob a vig\u00eancia da contrainsurg\u00eancia, por\u00e9m, o fen\u00f4meno se acusa e d\u00e1 lugar \u00e0 institui\u00e7\u00e3o da doutrina geopol\u00edtica como base da sua pol\u00edtica exterior. Deve-se isso, sem d\u00favida, ao fato de que, na aplica\u00e7\u00e3o de sua nova estrat\u00e9gia internacional, os Estados Unidos propiciaram e apoiaram a substitui\u00e7\u00e3o de regimes democr\u00e1tico-liberais por ditaduras militares na maioria dos pa\u00edses da regi\u00e3o. Mas deve-se tamb\u00e9m a que, situadas \u00e0 cabe\u00e7a do Estado, as For\u00e7as Armadas arrogaram-se o direito de fixar e preservar os interesses nacionais \u2013entendidos como seguran\u00e7a nacional\u2013 e formularam projetos pr\u00f3prios que, sendo postos em termos militares, se constitu\u00edam por isso mesmo em projetos de pot\u00eancia. Observemos que, segundo a defini\u00e7\u00e3o de um dos te\u00f3ricos da contrainsurg\u00eancia, Robert McNamara, a ess\u00eancia da seguran\u00e7a \u00e9 o desenvolvimento econ\u00f4mico \u2013o que, num pa\u00eds capitalista, quer dizer acumula\u00e7\u00e3o de capital. Compreende-se assim que as ditaduras militares elevassem os interesses da burguesia \u00e0 categoria de interesses nacionais e que sua pol\u00edtica de pot\u00eancia promovesse no plano internacional esses mesmos interesses.<\/li><li>Surge da\u00ed o conceito de&nbsp;<em>subimperialismo<\/em>. Formulado no contexto da teoria da depend\u00eancia e referido \u00e0 vis\u00e3o que esta tinha da integra\u00e7\u00e3o imperialista mundial, ele foi utilizado por mim e outros autores, entre os quais Andre Gunder Frank, Samir Amin, Theotonio dos Santos e Vania Bambirra, mas tamb\u00e9m criticado ao interior dessa corrente, principalmente por Fernando Henrique Cardoso; por influ\u00eancia dessa postura cr\u00edtica, mais de um autor brasileiro preferiu considerar o desenvolvimento recente do pa\u00eds em termos de simples expansionismo. A for\u00e7a do fen\u00f4meno a que o conceito de subimperialismo alude levou a que as Na\u00e7\u00f5es Unidas, privilegiando sua dimens\u00e3o estritamente econ\u00f4mica, acunhassem e difundissem, atrav\u00e9s de seus \u00f3rg\u00e3os t\u00e9cnicos, o conceito de&nbsp;<em>novos pa\u00edses industrializados<\/em>, cujo uso se generalizou na segunda metade dos 70; nessa mesma linha, alguns autores marxistas trabalharam o tema, tendendo a suprimir as diferen\u00e7as qualitativas entre imperialismo e subimperialismo, particularmente, no M\u00e9xico, Enrique Semo e Jorge Casta\u00f1eda. Na teoria da pol\u00edtica internacional, o fen\u00f4meno conferiu import\u00e2ncia ao conceito de&nbsp;<em>pot\u00eancia m\u00e9dia<\/em>, que foi por alguns autores contraposto ao de subimperialismo e que se incorporou inclusive ao vocabul\u00e1rio oficial de certos Estados, notavelmente o M\u00e9xico e o Brasil. Observemos, finalmente, que, numa perspectiva estritamente geopol\u00edtica, que trabalhou com o conceito de&nbsp;<em>sat\u00e9lite privilegiado<\/em>, o tema foi tratado por V\u00edvian Tr\u00edas, nos anos 60, assim como Paulo Schilling, Rodolfo Puiggr\u00f3s, Gregorio Selser e outros. O golpe de 1973 no Chile reacendeu o interesse sobre este aspecto, datando de ent\u00e3o os estudos mais detalhados feitos pela esquerda sobre a doutrina geopol\u00edtica e suas aplica\u00e7\u00f5es na Am\u00e9rica Latina.<\/li><li>O conceito de subimperialismo define-se a partir de duas vertentes \u2013econ\u00f4mica e pol\u00edtica. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 primeira, ele parte do processo de expans\u00e3o e internacionaliza\u00e7\u00e3o do capital, na linha indicada por Marx, segundo a qual um&nbsp;<em>centro capitalista<\/em>&nbsp;(isto \u00e9, um centro de acumula\u00e7\u00e3o de capital) expande-se, gerando pontos de circula\u00e7\u00e3o, que progressivamente se convertem em n\u00facleos de acumula\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m, ainda que subordinados (correspondentes ao que a teoria da depend\u00eancia chamou de&nbsp;<em>capitalismos dependentes<\/em>). Esses n\u00facleos n\u00e3o s\u00f3 articulam sua circula\u00e7\u00e3o com aquela que cria o centro capitalista inicial (atrav\u00e9s de fluxos de mercadorias e capitais), mas tamb\u00e9m, a certo ponto de seu desenvolvimento, d\u00e3o origem a uma circula\u00e7\u00e3o relativamente aut\u00f4noma, que choca, se contradiz \u2013em maior ou menor grau\u2013 com a que parte do centro inicial. A que ponto do seu desenvolvimento? Naquele em que o capital esgota, em termos relativos, o mercado interno (tanto como consumidor de bens e servi\u00e7os como produtor de mat\u00e9rias primas), vendo-se for\u00e7ado a mover-se em dire\u00e7\u00e3o ao mercado externo para assegurar sua reprodu\u00e7\u00e3o; ou o faz simplesmente em busca dos lucros extraordin\u00e1rios que \u2013por raz\u00f5es que n\u00e3o v\u00eam aqui ao caso\u2013 o com\u00e9rcio exterior possibilita. No s\u00e9culo XIX, quando o sistema capitalista mundial encontrava-se em fase de crescimento extensivo, era regido por um centro capitalista de d\u00e9bil base produtiva e n\u00e3o criara ainda grandes desn\u00edveis econ\u00f4micos e militares entre seus componentes, esse momento ensejou a forma\u00e7\u00e3o de novos centros capitalistas e deu lugar a uma competi\u00e7\u00e3o exacerbada e violenta, que se resolveu atrav\u00e9s da guerra. No nosso tempo, de crescimento intensivo do sistema capitalista, de consolida\u00e7\u00e3o de uma dada distribui\u00e7\u00e3o de poder em seu interior, e de grandes desn\u00edveis de for\u00e7as entre pa\u00edses, as contradi\u00e7\u00f5es dos n\u00facleos dependentes com os centros \u00e9 menor, na medida em que s\u00e3o mais fortes os la\u00e7os que os ligam em termos de circula\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m porque, objetivamente, t\u00eam menos capacidade competitiva que os centros emergentes do s\u00e9culo XIX. Eles buscam, portanto, criar uma esfera de circula\u00e7\u00e3o externa, mas o fazem dentro da \u00f3rbita estabelecida pelos centros dominantes; em outros termos, criam uma&nbsp;<em>circula\u00e7\u00e3o relativamente aut\u00f4noma, mas, por isso mesmo, relativamente subordinada<\/em>.<\/li><li>Ainda na perspectiva da an\u00e1lise econ\u00f4mica, o conceito de subimperialismo liga o momento de extrovers\u00e3o, de sa\u00edda relativamente aut\u00f4noma ao exterior, com uma fase do processo interno de acumula\u00e7\u00e3o de capital, em seu duplo movimento: enquanto&nbsp;<em>concentra\u00e7\u00e3o<\/em>&nbsp;(crescimento real dos capitais individuais e do capital social total) e enquanto&nbsp;<em>centraliza\u00e7\u00e3o<\/em>&nbsp;(crescimento de certos capitais individuais \u00e0 custa da redistribui\u00e7\u00e3o do capital social total). Ambos movimentos da acumula\u00e7\u00e3o conduzem \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de monop\u00f3lios e \u00e0 fus\u00e3o do capital banc\u00e1rio e industrial que d\u00e1 lugar ao capital financeiro, segundo a an\u00e1lise leninista cl\u00e1ssica. Esse fen\u00f4meno, que implica tamb\u00e9m a monopoliza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia e da tecnologia, agu\u00e7a o antagonismo impl\u00edcito na forma\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os de produ\u00e7\u00e3o (que pressup\u00f5em uma redistribui\u00e7\u00e3o da mais-valia social), intensifica a cria\u00e7\u00e3o de mais-valia extraordin\u00e1ria e conduz \u00e0 exacerba\u00e7\u00e3o dos lucros extraordin\u00e1rios; em suma, leva ao paroxismo o processo de competi\u00e7\u00e3o, pressiona a taxa m\u00e9dia de lucro em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 baixa e p\u00f5e como quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia a sa\u00edda ao exterior. Nas condi\u00e7\u00f5es atuais do capitalismo internacional, que indiquei antes, essa sa\u00edda, como vimos, s\u00f3 pode dar-se de forma subordinada.&nbsp;<em>O subimperialismo, neste sentido, \u00e9 o capitalismo dependente chegado \u00e0 etapa dos monop\u00f3lios e do capital financeiro<\/em>.<\/li><li>Em sua vertente pol\u00edtica, o subimperialismo parte da considera\u00e7\u00e3o do Estado como fator direto de acumula\u00e7\u00e3o e instrumento de regula\u00e7\u00e3o do capital, de tal maneira que a pol\u00edtica estatal determina-se a partir do movimento real do capital e dos interesses da classe que o representa a burguesia. Enquanto \u00f3rg\u00e3o da classe em seu conjunto, o Estado goza de uma autonomia relativa frente a ela e de uma autonomia quase absoluta ante cada um dos grupos que a comp\u00f5em. Essa autonomia se acentua na medida em que ele \u00e9 o instrumento por excel\u00eancia que utilizam as distintas burguesias nacionais em seu inter-relacionamento. Dadas as rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o e subordina\u00e7\u00e3o que, por sua vez, estabelecem, dentro da mesma burguesia, suas camadas e fra\u00e7\u00f5es, o Estado \u2013sendo o instrumento de toda a classe\u2013 o \u00e9 com mais raz\u00e3o daquelas que ali se erigem como dominantes. Na express\u00e3o de Bukarin, o capital aglomera-se com o Estado, estabelece com ele v\u00ednculos org\u00e2nicos e converte o seu pr\u00f3prio movimento de expans\u00e3o em expans\u00e3o estatal, em a\u00e7\u00e3o do Estado nacional fora das suas fronteiras. Esse movimento, ao dar-se no \u00e2mbito da superestrutura, \u00e9 algo consciente, capaz de expressar-se em formula\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas e doutrin\u00e1rias, de plasmar-se em metas e projetos, de tra\u00e7ar linhas de a\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gicas e t\u00e1ticas. Visto desde este \u00e2ngulo,&nbsp;<em>o subimperialismo \u00e9 doutrina, projeto, \u00e9 pol\u00edtica enfim<\/em>.<\/li><li>\u00c9 essa riqueza e complexidade do fen\u00f4meno ao qual aponta o conceito de subimperialismo que fez dele algo t\u00e3o controvertido e deu lugar a tantos outros conceitos, referidos geralmente a este ou aquele aspecto espec\u00edfico da quest\u00e3o. Por outra parte, sua inclus\u00e3o num quadro de an\u00e1lise das rela\u00e7\u00f5es internacionais for\u00e7a a abandonar os esquemas simplistas que se aplicam a elas, baseados no dualismo e numa vis\u00e3o est\u00e1tica, como os que se expressam atrav\u00e9s das dicotomias leste-oeste, norte-sul, centro-periferia. \u00c9 necess\u00e1rio romper com esses esquemas para que as rela\u00e7\u00f5es internacionais apare\u00e7am como processo e como campo de for\u00e7as cambiantes, como uma teia intrincada que, se hierarquizada e formalizada, se configura menos em forma circular que em forma piramidal. No v\u00e9rtice, o centro imperialista com as economias nacionais que o comp\u00f5em, na se\u00e7\u00e3o seguinte os capitalismos emergentes que tendem ao subimperialismo e assim por diante. Agitada por incessantes movimentos, essa figura est\u00e1 sempre em vias de transformar-se, amea\u00e7ando mais de um pa\u00eds imperialista com a degrada\u00e7\u00e3o a um n\u00edvel inferior, acenando aos capitalismos emergentes com a possibilidade [de] novos patamares e incentivando-os a lutar por sua entrada no c\u00edrculo imperialista.<\/li><li>Este \u00faltimo caso \u00e9, sem d\u00favida, o do Brasil, o caso mais paradigm\u00e1tico em rela\u00e7\u00e3o ao fen\u00f4meno aqui considerado. Conv\u00e9m assinalar que o subimperialismo brasileiro n\u00e3o pode ser visto, como se pretende \u00e0s vezes, como r\u00f3tulo aplicado a uma realidade est\u00e1tica. A vinte anos de sua emerg\u00eancia, ele tem j\u00e1 a sua hist\u00f3ria, desde o momento em que se formulou como projeto de domina\u00e7\u00e3o subordinada pela Escola Superior de Guerra at\u00e9 hoje, quando se converteu em elemento constitutivo da ideologia burguesa e em pol\u00edtica pr\u00e1tica do Estado; desde o momento em que pretendeu fazer realmente do pa\u00eds um \u201csat\u00e9lite privilegiado\u201d dos Estados Unidos at\u00e9 hoje, quando olha esse pa\u00eds com crescente desconfian\u00e7a e procura ampliar sua margem de manobra em rela\u00e7\u00e3o a ele; desde o momento, enfim, em que sonhou com praticar anexa\u00e7\u00f5es mais ou menos disfar\u00e7adas e levou a cabo interven\u00e7\u00f5es quase abertas na pol\u00edtica interna de seus vizinhos at\u00e9 hoje, quando privilegia a expans\u00e3o econ\u00f4mica (mesmo que atrav\u00e9s da venda de armas) e a penetra\u00e7\u00e3o cultural (embora se trate da exporta\u00e7\u00e3o de telenovelas) como meios principais de a\u00e7\u00e3o.<\/li><li>O subimperialismo brasileiro n\u00e3o tem apenas uma hist\u00f3ria, conta tamb\u00e9m com uma obra a meio terminar. Rigidamente apegada aos princ\u00edpios da geopol\u00edtica, a diplomacia brasileira concebeu na Am\u00e9rica Latina duas \u00e1reas priorit\u00e1rias de a\u00e7\u00e3o \u2013a da bacia do Prata e a da bacia amaz\u00f4nica\u2013 e buscou vincular os pa\u00edses correspondentes a cada uma mediante tratados coletivos, destinados a promover sua integra\u00e7\u00e3o \u00e0 economia nacional. Al\u00e9m-mar, lan\u00e7ou-se em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00c1frica, disposta a intermediar a domina\u00e7\u00e3o imperialista naquele continente. Seu projeto mais caro \u00e9 o de converter o Brasil em pot\u00eancia hegem\u00f4nica no Atl\u00e2ntico Sul, tendo chegado mesmo em certo momento a sonhar com uma Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Sul (OTAS), projeto que a vida se encarregou de inviabilizar. A partir de meados dos 70, o subimperialismo brasileiro perde o car\u00e1ter espetacular e at\u00e9 fanfarr\u00e3o que adotara at\u00e9 ent\u00e3o, e o faz seja pela press\u00e3o dos fatores internos que encaminhavam o pa\u00eds \u00e0 redemocratiza\u00e7\u00e3o, seja pela necessidade de revisar sua estrat\u00e9gia internacional. Essa necessidade colocou-se a partir do momento em que a possibilidade de uma alian\u00e7a vantajosa com Estados Unidos \u2013que o acordo Kissinger-Geisel de 1976 quase tornou realidade\u2013 \u00e9 substitu\u00edda pela tens\u00e3o imposta pelo governo Carter \u00e0s rela\u00e7\u00f5es entre os dois pa\u00edses e, logo, pela press\u00e3o aberta de Reagan por restabelecer a plena hegemonia norte-americana na zona. Desde ent\u00e3o, o Itamarati, convertido em instrumento de promo\u00e7\u00e3o dos interesses da grande burguesia industrial e financeira no exterior, e atuando dentro dos marcos impostos pelo Conselho de Seguran\u00e7a Nacional, buscar\u00e1 abrir novos espa\u00e7os para o projeto de pot\u00eancia tra\u00e7ado, modificando sua posi\u00e7\u00e3o hostil aos pa\u00edses socialistas, reaproximando-se dos pa\u00edses do Terceiro Mundo e tentando abrir brechas dentro do pr\u00f3prio bloco imperialista.<\/li><li>Se \u00e9 verdade que o subimperialismo brasileiro constitui o melhor exemplo da pr\u00e1tica de uma diplomacia centrada na geopol\u00edtica, isto n\u00e3o significa que ele seja uma exce\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina. Muitos outros pa\u00edses praticam pol\u00edticas semelhantes, destacando-se a Argentina, que, desde 1966, com suas interven\u00e7\u00f5es em pa\u00edses vizinhos e seus esfor\u00e7os por disputar a Brasil a hegemonia no Atl\u00e2ntico Sul, d\u00e1 uma r\u00e9plica frontal \u00e0 pol\u00edtica do Itamarati. O Chile, paralelamente a seus encontr\u00f5es com o Peru, procura primeiro criar uma \u00e1rea pr\u00f3pria de influ\u00eancia, atrav\u00e9s do Pacto Andino, e vai depois quase \u00e0 guerra com a Argentina, por sua insist\u00eancia em assegurar-se uma posi\u00e7\u00e3o no Atl\u00e2ntico Sul. Conv\u00e9m observar que a ditadura militar chilena vulnerou gravemente o acordo t\u00e1cito de Argentina e Brasil no sentido de garantir autonomia relativa a essa \u00e1rea, quando se aliou com a Inglaterra, interessada em conservar a influ\u00eancia que sempre teve ali \u2013o que lograria plenamente com o resultado da guerra das Malvinas. Mais ao norte, finalmente, as pretens\u00f5es encontradas de hegemonia subordinada do M\u00e9xico e da Venezuela \u2013e, em certa medida, da Col\u00f4mbia\u2013 na Am\u00e9rica Central acabariam dando o fruto feliz do Grupo de Contadora, uma vez que os advers\u00e1rios viram-se for\u00e7ados a unir-se para fazer frente \u00e0 amea\u00e7a da interven\u00e7\u00e3o militar norte-americana na \u00e1rea.<\/li><li>A impress\u00e3o um pouco fant\u00e1stica que transmite o jogo geopol\u00edtico na Am\u00e9rica Latina n\u00e3o \u00e9 produto da an\u00e1lise, mas dos fatos. Ela vem da percep\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 processos de reestrutura\u00e7\u00e3o atualmente em marcha, os quais, operando em escala mundial, convertem em brinquedo de crian\u00e7a as arma\u00e7\u00f5es particulares dos governos latino-americanos. Desde a d\u00e9cada passada, a economia capitalista mundial entrou numa crise profunda, que amea\u00e7a com transformar radicalmente o quadro de refer\u00eancias, o cen\u00e1rio maior em que se move a Am\u00e9rica Latina. S\u00e3o v\u00e1rios os analistas que, constatando o decl\u00ednio relativo do poderio norte-americano, assim como a necessidade que tem o centro do sistema de racionalizar-se, suprimindo a competi\u00e7\u00e3o excessiva, constatam a afirma\u00e7\u00e3o progressiva da pol\u00edtica chamada \u201cdo lado do Pac\u00edfico\u201d, isto \u00e9, de alian\u00e7a entre os Estados Unidos e o Jap\u00e3o em detrimento da Europa. Isto, que se esbo\u00e7ara j\u00e1 com a primeira crise do petr\u00f3leo \u2013verdadeiro golpe desferido contra a economia europeia\u2013 foi-se desenvolvendo depois por outros caminhos que compreendem coisas t\u00e3o diversas como uma eventual alian\u00e7a com a China (hoje, menos prov\u00e1vel) e os acordos entre firmas norte-americanas e japonesas em ramas como a automobil\u00edstica e a inform\u00e1tica. Paralelamente, iniciava-se um processo de aproxima\u00e7\u00e3o e coopera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica entre a Europa ocidental e o bloco sovi\u00e9tico, destacando-se a\u00ed o epis\u00f3dio do gasoduto transiberiano. Sobre esse movimento que realiza Europa cabem duas observa\u00e7\u00f5es: primeira, que ele n\u00e3o inclui a Inglaterra, que joga mais do lado norte-americano que europeu, fato que, se bem considerado pelos militares argentinos, lhes teria evitado, ao lan\u00e7ar-se contra ela, alimentar esperan\u00e7as de que os Estados Unidos se alinhassem com eles na guerra das Malvinas; segunda, que, buscando armas para fazer frente \u00e0 press\u00e3o norte-americana, a Europa, e em particular a Fran\u00e7a, maneja a possibilidade de alian\u00e7as no Terceiro Mundo e constitui o elo fraco da corrente imperialista em quest\u00f5es de transcend\u00eancia para este, como, por exemplo, a da d\u00edvida externa.<\/li><li>A crise mundial e as tend\u00eancias de reestrutura\u00e7\u00e3o internacional que dela surgem afetam a Am\u00e9rica Latina de outra maneira. Durante a segunda metade dos 60 e no curso da d\u00e9cada passada, a violenta competi\u00e7\u00e3o interimperialista abriu \u00e0 regi\u00e3o ampla margem de manobra e alentou em muitos de seus governos projetos de pot\u00eancia. A d\u00e9cada de 1980 marchou noutra dire\u00e7\u00e3o, ao empenharem-se Estados Unidos em reconquistar o terreno perdido, seja de maneira direta, seja brandindo o chicote do Fundo Monet\u00e1rio Internacional. Hoje, Am\u00e9rica Latina est\u00e1 confrontada a um projeto de reestrutura\u00e7\u00e3o que exige a reconvers\u00e3o produtiva de suas economias, de modo a assegurar sua inser\u00e7\u00e3o plena na nova divis\u00e3o internacional do trabalho que est\u00e1 em processo. Essa reconvers\u00e3o \u2013que d\u00e1 \u00eanfase \u00e0s exporta\u00e7\u00f5es e \u00e0 homogeneiza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica segundo os par\u00e2metros internacionais\u2013 implica a destrui\u00e7\u00e3o de parte de seu capital social, particularmente na ind\u00fastria manufatureira. Isto afetou j\u00e1 profundamente pa\u00edses que se haviam industrializado sobre bases fr\u00e1geis, como Chile e Uruguai, mas tamb\u00e9m um pa\u00eds que contava com base mais s\u00f3lida, como a Argentina. Por outro lado, para aqueles que, por sua infraestrutura econ\u00f4mica, popula\u00e7\u00e3o e recursos, disp\u00f5em de melhores condi\u00e7\u00f5es para continuar seu desenvolvimento industrial, como Brasil e M\u00e9xico, a reestrutura\u00e7\u00e3o parece reservar destinos diferentes: enquanto o primeiro aprofunda e consolida, durante a crise, os alicerces da sua economia nacional, o segundo reorienta a sua para o mercado norte-americano, deixando aberta a possibilidade de que se concretize o projeto de Reagan no sentido de formar com ele e Canad\u00e1 um mercado comum. Para todos os pa\u00edses, venham eles a ser agr\u00edcolas, mineiros ou industriais, predominantemente, o projeto global de reestrutura\u00e7\u00e3o lhes exige incorporar-se diretamente \u00e0 economia internacional, \u00e0 maneira do que ocorria no per\u00edodo da economia exportadora do s\u00e9culo XIX. Faz\u00ea-lo, significa renunciar a constituir a Am\u00e9rica Latina em entidade definida no plano mundial.<\/li><li>Reside a\u00ed, sem d\u00favida, a raz\u00e3o pela qual os problemas de ordem geopol\u00edtica que dividiram a regi\u00e3o na d\u00e9cada passada tenham entrado em decl\u00ednio e que a din\u00e2mica regional se tenha orientado, nesta d\u00e9cada, a iniciativas bilaterais ou multilaterais enfocadas em dire\u00e7\u00e3o ao centro do sistema e, em particular, a Estados Unidos. A princ\u00edpios dos 80, assistiu-se \u00e0 revitaliza\u00e7\u00e3o do Sistema Econ\u00f4mico Latino-Americano (SELA) \u2013e, na suas \u00e1guas, da CEPAL\u2013 que procurava coordenar as rea\u00e7\u00f5es latino-americanas ao projeto de reestrutura\u00e7\u00e3o. Os resultados n\u00e3o foram brilhantes, como pouco brilhantes t\u00eam sido tamb\u00e9m os frutos de esfor\u00e7os de coordena\u00e7\u00e3o mais espec\u00edficos, como o do Grupo de Cartagena, relativo \u00e0 negocia\u00e7\u00e3o da d\u00edvida externa regional. As tentativas de levar a foros mais amplos as reivindica\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas latino-americanas n\u00e3o t\u00eam tido tamb\u00e9m sucesso; \u00e9 o que se viu no plano do chamado \u201cdi\u00e1logo norte-sul\u201d e, mais ainda, no \u201csul-sul\u201d, ficando como \u00faltimo gesto significativo da Am\u00e9rica Latina nesse terreno a frustrada reuni\u00e3o de Cancun, em 1980. No plano pol\u00edtico, a OEA entrou em crise, depois do triunfo da revolu\u00e7\u00e3o nicaraguense, sem que ningu\u00e9m se empenhasse realmente em resgat\u00e1-la. O Grupo de Contadora, a iniciativa mais not\u00e1vel do per\u00edodo, passa por seu pior momento e, n\u00e3o tendo recebido dos pa\u00edses mais fortes do hemisf\u00e9rio sul mais do que um apoio ret\u00f3rico, amea\u00e7a com dissolver-se.<\/li><li>A fal\u00eancia dos governos latino-americanos para encontrar f\u00f3rmulas e meios comuns de a\u00e7\u00e3o se contrap\u00f5e a uma defini\u00e7\u00e3o cada vez mais precisa da estrat\u00e9gia norte-americana na regi\u00e3o, tendente a incorpor\u00e1-la radicalmente \u00e0 sua esfera direta de domina\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, de centro-americaniz\u00e1-la. Assim, no plano militar, Estados Unidos, depois de apoiar Inglaterra contra Argentina na guerra das Malvinas, deu luz verde a esta \u00faltima para converter suas Falklands em poderosa base militar da OTAN \u2013o que significa o dobre de sinos para os sonhos de uma zona pol\u00edtico-militar dotada de relativa autonomia no Atl\u00e2ntico Sul, que alimentavam Brasil e Argentina. Pelo lado do Pac\u00edfico, os Estados Unidos obtiveram j\u00e1 da ditadura chilena a cess\u00e3o da ilha de P\u00e1scoa para a instala\u00e7\u00e3o de uma base militar e negociam acordos semelhantes com outros pa\u00edses. Rompem, assim, o pacto t\u00e1cito contra\u00eddo com Am\u00e9rica do Sul, e em especial com o Brasil, a princ\u00edpios do s\u00e9culo, quando iniciaram sua luta pela hegemonia na regi\u00e3o, o qual implicava para esta uma pol\u00edtica de&nbsp;<em>hands-off<\/em>. Dentro da linha tra\u00e7ada atualmente, o imperialismo norte-americano quer estender sua \u00e1rea de seguran\u00e7a a toda a Am\u00e9rica Latina, atropelando a soberania de seus Estados, e se orienta no sentido de negar qualquer pretens\u00e3o de autonomia, ao n\u00edvel que for, por parte destes.<\/li><li>No plano econ\u00f4mico, n\u00e3o tem sido diferente o comportamento dos Estados Unidos. Uma vez que, movidas por seus projetos nacionais e suas pretens\u00f5es de autonomia, as For\u00e7as Armadas latino-americanas mostraram ser aliados pouco confi\u00e1veis \u2013ou, pelo menos, pouco control\u00e1veis\u2013, o governo norte-americano distanciou-se delas e, de acordo tamb\u00e9m com seus interesses mais gerais, passou a favorecer o traspasso do controle estatal \u00e0s burguesias locais. Isso coincidiu com o abandono dos \u00f3rg\u00e3os pol\u00edtico-militares (como o Pent\u00e1gono, o Departamento de Estado, a CIA) como instrumentos principais de a\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o, em favor do Departamento de Com\u00e9rcio, das comiss\u00f5es econ\u00f4micas do Congresso, do Tesouro, do Banco Central e, especialmente, do FMI. Em 1982, os dois pa\u00edses que ainda se mantinham recalcitrantes \u2013M\u00e9xico e Brasil\u2013 curvaram a espinha ante este \u00faltimo. De l\u00e1 para c\u00e1, imp\u00f4s-se o manejo da pol\u00edtica econ\u00f4mica dos pa\u00edses latino-americanos por m\u00e3os situadas em Washington, dentro de um esquema de rela\u00e7\u00f5es estritamente bilateral. A insubordina\u00e7\u00e3o argentina de 1984, ao assumir Alfons\u00edn, as press\u00f5es de Cuba, as resist\u00eancias surgidas recentemente no Brasil e a amea\u00e7a de um colapso econ\u00f4mico do M\u00e9xico levaram, semanas atr\u00e1s, ao lan\u00e7amento por Estados Unidos do Plano Baker, que se prop\u00f5e acarrear cerca de 20 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em tr\u00eas anos aos pa\u00edses da regi\u00e3o, sempre e quando se mantenha a disciplina da reconvers\u00e3o econ\u00f4mica, se respeite o car\u00e1ter bilateral dos acordos e se garanta a livre circula\u00e7\u00e3o de capitais e mercadorias, em benef\u00edcio dos Estados Unidos.<\/li><li>Em termos de soberania e de progresso material, os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina n\u00e3o parecem, assim, encontrar-se no limiar do s\u00e9culo XXI. Veem antes erguer-se como amea\u00e7a a volta ao passado, o regresso ao s\u00e9culo XIX e seu legado de humilha\u00e7\u00f5es, espolia\u00e7\u00e3o e injusti\u00e7a. \u00c9 poss\u00edvel que um ou dois pudessem escapar \u00e0 sorte que pesa sobre os demais, integrando-se em posi\u00e7\u00e3o mais confort\u00e1vel no sistema imperialista. Isso se pagaria, por\u00e9m, com a superexplora\u00e7\u00e3o e a mis\u00e9ria dos seus pr\u00f3prios trabalhadores e o esmagamento das esperan\u00e7as da maioria dos povos da regi\u00e3o. \u00c9 dif\u00edcil admitir que isto possa vir a ocorrer. Encontramo-nos hoje em uma fase dif\u00edcil do processo latino-americano, quando, depois de duas d\u00e9cadas de viol\u00eancia estatal, apenas iniciamos a reconstru\u00e7\u00e3o de nossas organiza\u00e7\u00f5es populares, das nossas for\u00e7as de esquerda, dos nossos projetos de na\u00e7\u00e3o. Mas j\u00e1 \u00e9 vis\u00edvel que isso caminha em toda a regi\u00e3o, da Argentina ao M\u00e9xico, do Peru ao Brasil e, sobretudo, na Am\u00e9rica Central. N\u00e3o \u00e9 prov\u00e1vel que contemos de imediato com grandes iniciativas regionais, destinadas a defender nossa independ\u00eancia e assegurar nosso direito de construir a economia e a sociedade que nos conv\u00eam. Para isso, ser\u00e1 preciso aguardar que essa reconstru\u00e7\u00e3o haja amadurecido um pouco mais e que seus resultados se fa\u00e7am presentes no cen\u00e1rio pol\u00edtico. Mas podemos ter a certeza de que ela resgatar\u00e1 a ideia da Am\u00e9rica Latina, de sua unidade e de seu destino comum, e far\u00e1 disso premissa necess\u00e1ria do projeto de sociedade justa, livre e soberana que as lutas do presente j\u00e1 come\u00e7aram a forjar.<\/li><\/ol>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em><span class=\"has-inline-color has-nv-dark-bg-color\">Ruy Mauro Marini<\/span><\/em><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns has-2-columns has-desktop-oneTwo-layout has-tablet-equal-layout has-mobile-equal-layout has-default-gap has-vertical-unset\" id=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns-78bfedee\"><div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns-overlay\"><\/div><div class=\"innerblocks-wrap\">\n<div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-column\" id=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-column-c83ae97b\"><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-column\" id=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-column-3c638dde\">\n<div class=\"wp-block-file alignright\"><a id=\"wp-block-file--media-0f07d30e-2e27-459c-8576-e91a99c4da43\" href=\"http:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/1985\/12\/53-Geopoli\u0301tica-latino-americana.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Geopoli\u0301tica latino-americana<\/a><\/div>\n<\/div>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fuente: Arquivo Pessoal de Marini depositado no Programa de Estudos de Am\u00e9rica Latina e Caribe-Universidade do Estado do Rio de Janeiro, ca. 1985. 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