{"id":3783,"date":"1985-01-01T18:09:48","date_gmt":"1985-01-01T18:09:48","guid":{"rendered":"https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/?p=3783"},"modified":"2023-04-20T22:57:03","modified_gmt":"2023-04-20T22:57:03","slug":"o-movimento-operario-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/?p=3783","title":{"rendered":"O movimento oper\u00e1rio no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Foto2_Passeata-610x284-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1815\" width=\"744\" height=\"346\" srcset=\"https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Foto2_Passeata-610x284-1.jpg 610w, https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Foto2_Passeata-610x284-1-300x140.jpg 300w, https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Foto2_Passeata-610x284-1-600x279.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 744px) 100vw, 744px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\">Fuente: Publicado originalmente na revista <em>Pol\u00edtica e administra\u00e7\u00e3o<\/em>, N. 173, Rio de Janeiro, 1985. Republicado em espanhol, com tradu\u00e7\u00e3o de Francisco Cervantes, na revista <a href=\"http:\/\/www.cuadernospoliticos.unam.mx\/\"><em>Cuadernos Pol\u00edticos<\/em><\/a> n. 46, Ediciones Era, M\u00e9xico D.F., abril-junio de 1986, pp. 5-23. <\/mark><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-text-color has-vivid-red-color has-css-opacity has-vivid-red-background-color has-background\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">1 \u2013 Do anarco-sindicalismo ao corporativismo<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\">O movimento oper\u00e1rio brasileiro desenvolve-se, ainda hoje, no fundamental, nos marcos institucionais estabelecidos no curso dos anos 30 e completados com a Consolida\u00e7\u00e3o das Leis do Trabalho \/CLT), de 1943. Foram poucas as modifica\u00e7\u00f5es nela introduzidas pelo regime militar sob o qual viveu o pa\u00eds, depois de 1964: no essencial, a limita\u00e7\u00e3o do direito de greve e a extin\u00e7\u00e3o do estatuto da estabilidade no emprego; pode-se mencionar tamb\u00e9m a pol\u00edtica salarial.<sup>1<\/sup> O car\u00e1ter verticalista da CLT \u2013 que consagra os sindicatos \u00fanicos por categoria e exclui o relacionamento horizontal entre eles, desde a base at\u00e9 a c\u00fapula; a extrema depend\u00eancia em que ela p\u00f5e a estrutura frente ao Estado \u2013 o qual, al\u00e9m da tutela permanente que exerce sobre os sindicatos, com amplo direito de interven\u00e7\u00e3o, fixa as contribui\u00e7\u00f5es sindicais e a recolhe a um fundo \u00fanico, redistribuindo-se depois, via federa\u00e7\u00f5es e confedera\u00e7\u00f5es; o papel de intermedia\u00e7\u00e3o e regula\u00e7\u00e3o que ela confere \u00e0 Justi\u00e7a do Trabalho e ao Minist\u00e9rio do Trabalho nas negocia\u00e7\u00f5es entre patr\u00f5es e empregados \u2013 tudo isso fez da CLT um instrumento eficiente para a pol\u00edtica de controle e repress\u00e3o do movimento oper\u00e1rio, que o regime militar aplicou com m\u00e3o dura.<\/p>\n\n\n\n<p>A vig\u00eancia dessa legisla\u00e7\u00e3o por um per\u00edodo t\u00e3o largo n\u00e3o \u00e9 um acidente na hist\u00f3ria do movimento oper\u00e1rio brasileiro; pelo contr\u00e1rio, ela \u00e9 express\u00e3o de um fen\u00f4meno mais profundo, consubstancial \u00e0 sua evolu\u00e7\u00e3o, a partir de certo per\u00edodo: a marcada depend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao Estado em que ele foi posto durante o Estado Novo (1937-1945), momento em que a sociedade como um todo foi reestruturada de cima para baixo em moldes corporativos, segundo o modelo europeu (principalmente o italiano). Desde ent\u00e3o, e at\u00e9 hoje, a dial\u00e9tica interna do movimento oper\u00e1rio passa a ser signada pela confronta\u00e7\u00e3o de tend\u00eancias classistas com as for\u00e7as que \u2013 dentro e fora dele \u2013 pugnam por mant\u00ea-lo subordinado ao Estado e, atrav\u00e9s deste, \u00e0 burguesia.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seus albores, a situa\u00e7\u00e3o foi diferente. Sobre a base de uma industrializa\u00e7\u00e3o limitada e lenta, tendem-se a constituir uma classe oper\u00e1ria a um movimento sindical semelhantes aos dos pa\u00edses capitalistas mais adiantados, tanto mais que as tradi\u00e7\u00f5es de organiza\u00e7\u00e3o e luta neles existentes foram logo transplantadas para aqui, gra\u00e7as \u00e0 incid\u00eancia dos imigrantes europeus na forma\u00e7\u00e3o do proletariado. Combativa e doutrin\u00e1ria, sob inspira\u00e7\u00e3o anarco-sindicalista, a classe oper\u00e1ria protagonizou in\u00fameras lutas, das quais a mais not\u00e1vel foi a greve de 1917, em S\u00e3o Paulo, quando os oper\u00e1rios \u2013 agitando um programa maximalista \u2013 apoderam-se do controle da cidade por v\u00e1rios dias. A resposta estatal foi a repress\u00e3o, que golpeou com for\u00e7a os trabalhadores durante os anos 20; data desse per\u00edodo a divis\u00e3o da lideran\u00e7a oper\u00e1ria, com a forma\u00e7\u00e3o do Partido Comunista, em 1922. Ap\u00f3s breve ressurgimento, nos anos imediatos \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o burguesa de 1930 \u2013 da qual o operariado n\u00e3o participou como classe \u2013 e a obten\u00e7\u00e3o de significativas conquistas trabalhistas, os trabalhadores foram enquadrados no esquema corporativo do Estado Novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Para que isso fosse poss\u00edvel, concorreram v\u00e1rios fatores. A acelera\u00e7\u00e3o do processo de industrializa\u00e7\u00e3o, a partir dos anos 1920, provocou um crescimento relativamente importante dos efetivos oper\u00e1rios, dentro de um padr\u00e3o que se manteve vigente at\u00e9 os anos 50. A caracter\u00edstica central desse padr\u00e3o residia no fato de o crescimento derivaria principalmente das migra\u00e7\u00f5es rurais para os grandes centros urbanos, principalmente S\u00e3o Paulo. Essa tend\u00eancia refletiu-se na constitui\u00e7\u00e3o e na din\u00e2mica da classe oper\u00e1ria brasileira de duas maneiras. Uma delas foi a dilui\u00e7\u00e3o do pequeno n\u00facleo de oper\u00e1rios relativamente qualificados, em sua maioria de origem estrangeira \u2013 que se havia formado at\u00e9 os anos 20 em ind\u00fastrias como a gr\u00e1fica, a t\u00eaxtil, de vestu\u00e1rio e cal\u00e7ado, de fabrica\u00e7\u00e3o de m\u00f3veis \u2013 numa massa crescentemente ampliada de oper\u00e1rios n\u00e3o qualificados, ligados \u00e0 constru\u00e7\u00e3o civil, transportes e servi\u00e7os p\u00fablicos e, logo, tamb\u00e9m, \u00e0 pr\u00f3pria ind\u00fastria manufatureira. O proletariado industrial incorporou, assim, em grande escala, trabalhadores de fresca origem rural, analfabetos em sua maioria e carentes de experi\u00eancia em mat\u00e9ria de organiza\u00e7\u00e3o e luta, oriundos como eram de um regime de rela\u00e7\u00f5es semiescravistas.<sup>2<\/sup> \u00c9 natural que as condi\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a da vanguarda oper\u00e1ria do per\u00edodo anterior se debilitassem, facultando ao Estado a coopta\u00e7\u00e3o e a manipula\u00e7\u00e3o dos novos dirigentes, tanto mais que aumentava a presen\u00e7a estatal nas novas \u00e1reas de expans\u00e3o econ\u00f4mica. Surge a figura do \u201cpelego\u201d, dirigente sindical vinculado ao governo, via Minist\u00e9rio do Trabalho, encarregado de negociar com este concess\u00f5es aos seus representados em troca do seu enquadramento na pol\u00edtica governamental.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra maneira pela qual as migra\u00e7\u00f5es rurais influ\u00edram na classe oper\u00e1ria deveu-se a que elas punham \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria massas crescentes de trabalhadores, que se somavam ao excedente de m\u00e3o-de-obra sempre dispon\u00edvel na ind\u00fastria artesanal. Isso levou \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de um proletariado apenas virtual, isto \u00e9, uma popula\u00e7\u00e3o carente de recursos e servi\u00e7os, amontoada na periferia ou nos interst\u00edcios das cidades e que subsistia \u00e0 custa de pequenos expedientes ou da presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os pessoais; ser-lhe-ia dif\u00edcil assumir uma cultura prolet\u00e1ria e, inclusive, urbana. Em contato permanente com esse setor, com o qual se confundia e interpenetrava em suas franjas extremas, a classe oper\u00e1ria n\u00e3o apenas sofreu a press\u00e3o que ele exercia no mercado de trabalho, debilitando sua posi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos patr\u00f5es e ao Estado, como tamb\u00e9m o teve como lastro no processo de constru\u00e7\u00e3o de sua consci\u00eancia de classe.<\/p>\n\n\n\n<p>No contexto criado pelo Estado Novo, o movimento oper\u00e1rio passou a ser determinado pelo jogo interno do aparelho estatal e, portanto, pelos conflitos e contradi\u00e7\u00f5es que se desenvolveriam no seio da burguesia, os quais eclodiram ap\u00f3s a instaura\u00e7\u00e3o do segundo governo de Get\u00falio Vargas, em 1951. O fim da guerra mundial e a recomposi\u00e7\u00e3o da economia capitalista, sob hegemonia norte-americana, haviam recolocado no centro das discuss\u00f5es o papel da economia brasileira e suas rela\u00e7\u00f5es com os grandes centros desenvolvidos. No per\u00edodo de entreguerras, o pa\u00eds iniciara o seu processo de industrializa\u00e7\u00e3o, valendo-se inclusive da competi\u00e7\u00e3o que estabeleciam os grandes centros \u2013 em particular, Estados Unidos e Alemanha \u2013 em torno \u00e0 Am\u00e9rica Latina; a grande ind\u00fastria sider\u00fargica nascera assim, como fruto da pol\u00edtica de barganha do governo ditatorial de Vargas com a Alemanha, primeiro, e com os Estados Unidos, depois. Mas a industrializa\u00e7\u00e3o s\u00f3 se tornara poss\u00edvel com o desmonte do regime olig\u00e1rquico pela revolu\u00e7\u00e3o de 1930 e a irrup\u00e7\u00e3o da burguesia industrial no plano pol\u00edtico, apoiada pela pequena burguesia. O Estado Novo de 1937 selou o compromisso da burguesia industrial com a velha oligarquia agr\u00e1rio-exportadora. Nesse contexto, se a oligarquia via-se obrigada a financiar, em certa medida, a industrializa\u00e7\u00e3o \u2013 atrav\u00e9s do confisco cambial, que remunerava suas exporta\u00e7\u00f5es com um d\u00f3lar subvalorado \u2013 os seus excedentes de produ\u00e7\u00e3o eram adquiridos pelo Estado, transferindo \u00e0 sociedade suas eventuais perdas e \u2013 mais importante ainda \u2013 a estrutura agr\u00e1ria continuava intocada. O desenvolvimento industrial garantiria a reprodu\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do pa\u00eds, oferecendo \u00e0 oligarquia \u2013 via sistema banc\u00e1rio, principalmente \u2013 campos de investimento para seu capital sobrante.<\/p>\n\n\n\n<p>Criou-se, assim, um sistema econ\u00f4mico em que se entrela\u00e7avam dois subsistemas: o agr\u00e1rio-exportador \u2013 revigorado pelo conflito mundial \u2013 e o industrial voltado para o mercado interno \u2013 ainda que, durante a guerra, este se houvesse integrado transit\u00f3ria e parcialmente ao exportador, suprindo de manufaturas ligeiras os pa\u00edses beligerantes. O segundo desenvolvera-se \u00e0 sombra do primeiro e fora por ele alimentado em parte, gra\u00e7as ao mercado ali existente, \u00e0 transfer\u00eancia de recursos \u2013 atrav\u00e9s do Estado ou dos bancos \u2013 e \u00e0 migra\u00e7\u00e3o de m\u00e3o-de-obra do campo para a cidade. Seria isto que come\u00e7aria a ser posto em quest\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">2 \u2013 O conflito interburgu\u00eas<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\">A estrutura\u00e7\u00e3o do mercado mundial, depois de Bretton Woods, levou a burguesia agr\u00e1rio-exportadora a postular a ruptura do compromisso de 1937, no sentido de uma instrumentaliza\u00e7\u00e3o do Estado favor\u00e1vel a seus interesses, isto \u00e9, num sentido liberalizante. A burguesia industrial, por seu lado, defendia a pol\u00edtica protecionista e exigia uma interven\u00e7\u00e3o mais decidida do Estado na economia, tanto mais que se via pressionada pelo capital privado norte-americano, desejoso de investir nos setores mais rent\u00e1veis do parque industrial brasileiro. Temas como o controle cambial, a pol\u00edtica alfandeg\u00e1ria e a nacionaliza\u00e7\u00e3o dos recursos b\u00e1sicos passaram ao primeiro plano da discuss\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>Coube a Vargas, candidatando-se a um novo per\u00edodo de governo, cinco anos ap\u00f3s sua deposi\u00e7\u00e3o, p\u00f4r em pr\u00e1tica a pol\u00edtica da burguesia industrial. Para sustent\u00e1-la, mobilizou os apoios de massa em que se havia assentado o esquema de poder do Estado Novo: a classe m\u00e9dia assalariada, que se beneficiara com a expans\u00e3o do aparelho burocr\u00e1tico, fonte de empregos, e a classe oper\u00e1ria, manipulada pela estrutura sindical. As grandes medidas de seu governo foram tomadas na crista de movimentos articulados por essas for\u00e7as, como se viu na campanha pela nacionaliza\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo, em 1952.<\/p>\n\n\n\n<p>Convocada a participar da disputa que lavrava dentro do bloco no poder e acionada pelo dispositivo sindical, cuja alavanca estava nas m\u00e3os do Estado, a classe oper\u00e1ria rompeu o imobilismo a que fora induzida pelo Estado Novo. Mas n\u00e3o o fez somente para apoiar a pol\u00edtica da burguesia industrial: envolveu-se tamb\u00e9m numa ativa milit\u00e2ncia anti-imperialista e em favor das grandes reformas econ\u00f4micas e sociais, cujos frutos se veriam dez anos depois, e lan\u00e7ou sobre o tapete suas pr\u00f3prias reinvindica\u00e7\u00f5es. Em 1953, numa mobiliza\u00e7\u00e3o de grande envergadura dos metal\u00fargicos, vidreiros e gr\u00e1ficos de S\u00e3o Paulo, ela conquista de fato o direito de greve, que a legisla\u00e7\u00e3o n\u00e3o lhe negava, mas que era anulado pela maranha burocr\u00e1tica e jur\u00eddica e pela pr\u00e1tica dos \u201cpelegos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de passar por violento acirramento, cujo saldo foi o tr\u00e1gico suic\u00eddio de Vargas, em 1954, a disputa interburguesa desembocou num acomodamento prec\u00e1rio na segunda metade da d\u00e9cada. Sob a presid\u00eancia de Juscelino Kubitschek, o pa\u00eds cede \u00e0s press\u00f5es norte-americanas, abrindo aos investimentos estrangeiros os setores novos e din\u00e2micos da ind\u00fastria, ao mesmo tempo que renuncia a qualquer transforma\u00e7\u00e3o no esquema global de reprodu\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Assim, a industrializa\u00e7\u00e3o \u00e9 levada ao limite permitido por esse esquema, que reservava ao setor agr\u00e1rio-exportador \u2013 e ao capital estrangeiro \u2013 a fun\u00e7\u00e3o de proporcionar as divisas necess\u00e1rias \u00e0 aquisi\u00e7\u00e3o de equipamentos e mat\u00e9rias-primas requeridas pela ind\u00fastria. Assim condicionada, esta ocupa at\u00e9 o ponto da satura\u00e7\u00e3o o mercado interno, nas faixas do consumo individual, e come\u00e7a a operar de modo ainda incipiente na esfera do consumo capitalista. A margem de expans\u00e3o, nesse contexto, \u00e9 naturalmente estreita e o crescimento econ\u00f4mico alcan\u00e7a logo os seus limites. Desde 1960, surgem pontos de estrangulamento, que acabar\u00e3o por conduzir \u00e0 crise de 1962-1967.<\/p>\n\n\n\n<p>O movimento oper\u00e1rio sofre um retrocesso. O padr\u00e3o de crescimento do proletariado, baseado nas migra\u00e7\u00f5es internas, chega ao seu paroxismo, com a r\u00e1pida expans\u00e3o do emprego que a industrializa\u00e7\u00e3o ensejava. A recomposi\u00e7\u00e3o, ainda que tempor\u00e1ria, das fra\u00e7\u00f5es que comp\u00f5em o bloco dominante reflete-se na conten\u00e7\u00e3o das reivindica\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias pela c\u00fapula sindical, a qual se organiza em torno do herdeiro de Vargas, Jo\u00e3o Goulart, vice-presidente da Rep\u00fablica. Entretanto, a infla\u00e7\u00e3o limitada mas persistente acaba por reestimular os movimentos reivindicativos, que evoluem para novas formas de organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Com efeito, os sindicatos passam a buscar f\u00f3rmulas capazes de superar os obst\u00e1culos \u00e0 a\u00e7\u00e3o comum de diferentes categorias, criados pela legisla\u00e7\u00e3o do Estado Novo. Surgem \u00f3rg\u00e3os de coordena\u00e7\u00e3o intersetorial, os chamados \u201cpactos de a\u00e7\u00e3o conjunta\u201d, particularmente atuantes naqueles setores que haviam tido maior desenvolvimento a partir da interven\u00e7\u00e3o do Estado na economia. Assim, ser\u00e3o os trabalhadores das empresas estatais e paraestatais \u2013 nos setores do petr\u00f3leo, ferrovias, administra\u00e7\u00e3o dos portos \u2013 que despontar\u00e3o como vanguarda das mobiliza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias. O ponto culminante destas atinge-se, a fins de 1950, na chamada \u201cgreve da paridade\u201d, que reuniu no Rio portu\u00e1rios, estivadores e mar\u00edtimos, com o apoio de outras categorias.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u201cgreve da paridade\u201d foi, em ampla medida, uma a\u00e7\u00e3o que desbordou o aparelho sindical oficial, atropelando os \u201cpelegos\u201d e as autoridades do Minist\u00e9rio do Trabalho. Serviu, por\u00e9m, ao governo, em particular ao Partido Trabalhista, chefiado por Goulart, como advert\u00eancia \u00e0s for\u00e7as antag\u00f4nicas do bloco dominante, que haviam fortalecido suas posi\u00e7\u00f5es. Efetivamente, as elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 1960 consagram a vit\u00f3ria de J\u00e2nio Quadros, sustentado pela grande burguesia agr\u00e1rio-exportadora e, agora, tamb\u00e9m industrial, aliada ao capital estrangeiro. Mas triunfa tamb\u00e9m, para a vice-presid\u00eancia, Goulart, que tinha atr\u00e1s de si a m\u00e9dia e pequena burguesia industrial, o movimento oper\u00e1rio e setores das classes m\u00e9dias. Modificara-se, pois, o quadro de alian\u00e7as, deixando para tr\u00e1s o corte horizontal entre burguesia industrial e agr\u00e1rio-exportadora, que regera os movimentos da pol\u00edtica nacional desde os anos 30.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">3 \u2013 O bloco burgu\u00eas-popular<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\">O reordenamento de for\u00e7as com que iniciava a d\u00e9cada de 1960, expresso na vit\u00f3ria simult\u00e2nea de dois candidatos antag\u00f4nicos, n\u00e3o era mais que manifesta\u00e7\u00e3o vis\u00edvel das mudan\u00e7as que se verificavam na sociedade brasileira. Junto com ele, ocorriam fen\u00f4menos menos evidentes, mas n\u00e3o menos decisivos para a evolu\u00e7\u00e3o do movimento oper\u00e1rio e das lutas de classes no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos acontecimentos marcantes da segunda metade dos anos 50 havia sido o surgimento do movimento campon\u00eas. Tradicionalmente ausente da vida pol\u00edtica, ignorado nas alian\u00e7as e compromissos de classes, o campesinato organizara-se atrav\u00e9s das Ligas Camponesas e batalhava por suas reivindica\u00e7\u00f5es. As Ligas haviam surgido no Nordeste, regi\u00e3o extremamente pobre e pouco industrializada; sua clientela era constitu\u00edda sobretudo por camponeses parcel\u00e1rios, geralmente destitu\u00eddos de t\u00edtulo de propriedade, mas englobava tamb\u00e9m os pe\u00f5es, inseridos num regime semiassalariado. Seu impacto na vida brasileira levara-as a expandir-se em dire\u00e7\u00e3o ao sul, em particular Minas Gerais e Goi\u00e1s, onde, ao lado do campesinato, havia um amplo contingente de assalariados, dispon\u00edveis para a mobiliza\u00e7\u00e3o. A tomada de consci\u00eancia do mundo rural e o interesse do Partido Comunista em conter a expans\u00e3o das Ligas, criadas fora de seu controle, levaram \u00e0 sindicaliza\u00e7\u00e3o dos oper\u00e1rios agr\u00edcolas, processo que se acelerou de forma extraordin\u00e1ria, j\u00e1 sob o governo Goulart, ao ser promulgada uma lei de sindicaliza\u00e7\u00e3o rural. O processo teria curta dura\u00e7\u00e3o, sendo interrompido pelo golpe militar de 1964, mas ressurgiram logo sob os ausp\u00edcios da Igreja Cat\u00f3lica.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma segunda linha de desenvolvimento do movimento sindical, naquela \u00e9poca, era a que passava pelas classes m\u00e9dias. Organizadas corporativamente pelo Estado Novo, que lhes dera seus sindicatos e associa\u00e7\u00f5es, suas entidades mais expressivas \u2013 em especial, a Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes (UNE) \u2013 voltaram-se contra ele e participaram das lutas pela redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, em 1945. Posteriormente, enquanto um setor, com destaque para a UNE; somava-se ao movimento nacionalista dos anos 50, outro \u2013 em particular profissionais liberais \u2013 manteve-se nos quadros da oposi\u00e7\u00e3o liberal. Nos anos cr\u00edticos com que se iniciou a d\u00e9cada de 1960, integravam o movimento popular, al\u00e9m dos estudantes, entidades sindicais dos banc\u00e1rios e do funcionalismo p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>O importante, por\u00e9m, n\u00e3o est\u00e1 no alinhamento dessas organiza\u00e7\u00f5es, mas no fato de que elas n\u00e3o davam conta da situa\u00e7\u00e3o real das classes m\u00e9dias, naquele momento. Engrossadas pela proletariza\u00e7\u00e3o (entendida como separa\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o, n\u00e3o necessariamente como pauperiza\u00e7\u00e3o) da pequena-burguesia, assim como pela ascens\u00e3o de quadros de extra\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria, que a r\u00e1pida expans\u00e3o dos servi\u00e7os provocara, elas haviam aumentado seu peso na sociedade. Constitu\u00edam ali o setor social de maior n\u00edvel educativo e beneficiavam-se de um contato flu\u00eddo com o exterior, o que lhes permitiu modernizar-se, adquirir novos gostos e aspira\u00e7\u00f5es de consumo e gerar novas formas culturais (de que a \u201cbossa nova\u201d, forma h\u00edbrida de samba e jazz, \u00e9 bom exemplo). Entretanto, num pa\u00eds com fracas estruturas partid\u00e1rias, um aparelho sindical envelhecido e organiza\u00e7\u00f5es sociais quase inexistentes, elas careciam de canais de express\u00e3o. O grande m\u00e9rito da UNE, mais male\u00e1vel e naturalmente perme\u00e1vel \u00e0s elites intelectuais, foi o de haver servido como tribuna a esses setores, da\u00ed advindo parte significativa do prest\u00edgio e da for\u00e7a que a entidade ostentou no per\u00edodo. O golpe militar cerrou tamb\u00e9m esse ciclo na hist\u00f3ria da representa\u00e7\u00e3o das classes m\u00e9dias, levando-as a procurar outros recursos, que se revelaram afinal mais eficazes e duradouros.<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente, entre os fen\u00f4menos profundos que afetavam o movimento popular a princ\u00edpios dos anos 60, \u00e9 necess\u00e1rio considerar a transforma\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria classe oper\u00e1ria e a experi\u00eancia de luta que ela viveu. O resultado contradit\u00f3rio das elei\u00e7\u00f5es de 1960 p\u00f4s o pa\u00eds sob a dire\u00e7\u00e3o da grande burguesia nacional e estrangeira (que esbo\u00e7aria, com Quadros, um programa de reformas que caberia, depois, ao regime militar revisar e aplicar); f\u00ea-lo, por\u00e9m, colocando a seu lado, em posi\u00e7\u00e3o subalterna mas vigilante, o bloco burgu\u00eas-popular, representado por Goulart. Essa estranha combina\u00e7\u00e3o n\u00e3o poderia durar. O pr\u00f3prio Quadros encarregou-se de cancel\u00e1-la, com sua ren\u00fancia, e a tentativa frustrada dos seus ministros militares, no sentido de impedir a posse de Goulart, ao provocar ampla mobiliza\u00e7\u00e3o popular, s\u00f3 fez apressar a transfer\u00eancia de poder. A situa\u00e7\u00e3o inverteu-se: o bloco burgu\u00eas-popular assumiu a Presid\u00eancia, sob a vigil\u00e2ncia de seus opositores, entrincheirados no Congresso, que \u2013 para maior seguran\u00e7a \u2013 imp\u00f4s a Goulart o regime parlamentarista. A luta pela hegemonia voltou ent\u00e3o \u00e0s ruas, atrav\u00e9s da campanha pelo restabelecimento do presidencialismo.<\/p>\n\n\n\n<p>O movimento oper\u00e1rio viu-se de novo na situa\u00e7\u00e3o que vivera em 1950: participar diretamente da disputa interburguesa, sob a dire\u00e7\u00e3o de uma de suas fra\u00e7\u00f5es. Mas os tempos haviam mudado. A presen\u00e7a burguesa no novo bloco de que ele participara era agora menos forte que no passado, enquanto aumentava o peso popular, pela grande incid\u00eancia que tinham as classes m\u00e9dias, a pequena burguesia propriet\u00e1ria e o campesinato, al\u00e9m da pr\u00f3pria classe oper\u00e1ria. Se, nos idos de 1950, os trabalhadores haviam-se movido naturalmente em dire\u00e7\u00e3o a uma relativa autonomia \u2013 como mostrara a greve de 1953 \u2013 com mais raz\u00e3o o fariam agora, quando a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as os favorecia e a luta de classes lhes exigia grandes esfor\u00e7os, tais como as duas greves gerais de 1962, nos marcos da campanha presidencialista, que levariam a esta vit\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa experi\u00eancia permitiu ao movimento oper\u00e1rio atingir graus superiores de organiza\u00e7\u00e3o. Constituiu-se o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), embri\u00e3o da almejada central \u00fanica, que contribuiu decisivamente para formar o que deveria ser a inst\u00e2ncia m\u00e1xima de condu\u00e7\u00e3o do movimento de massas: a Frente de Mobiliza\u00e7\u00e3o Popular (FMP), onde, ao lado do CGT e com exclus\u00e3o dos representantes da burguesia, estavam a UNE e um conjunto de \u00f3rg\u00e3os rec\u00e9m-criados \u2013 a Confedera\u00e7\u00e3o de Trabalhadores Agr\u00edcolas (Contag), o Comando Geral dos Sargentos, a Associa\u00e7\u00e3o de Marinheiros. Funcionando mais como um parlamento do que como \u00f3rg\u00e3o executivo, a FMP foi, sem d\u00favida, a experi\u00eancia mais avan\u00e7ada feita at\u00e9 hoje pelas for\u00e7as populares brasileiras em mat\u00e9ria de di\u00e1logo e coordena\u00e7\u00e3o, apesar das marcadas diferen\u00e7as de tend\u00eancias e opini\u00f5es ali existentes.<\/p>\n\n\n\n<p>A unidade que o movimento oper\u00e1rio alcan\u00e7ava na sua c\u00fapula e impunha, pelo exemplo, aos demais setores populares tinha, por\u00e9m, limita\u00e7\u00f5es. Em primeiro lugar, exclu\u00eda o CGT e os oper\u00e1rios agr\u00edcolas, ao mesmo tempo que sancionava a inclus\u00e3o de entidades de classe m\u00e9dia. Em segundo, realizava-se atrav\u00e9s de dirigentes que eram \u201cpelegos\u201d vindos do per\u00edodo anterior, os quais imprimiram ao CGT um car\u00e1ter acentuadamente burocr\u00e1tico e superestrutural, ao mesmo tempo que o enquadravam nos limites da estrat\u00e9gia governamental. Em terceiro lugar, pelo car\u00e1ter da estrutura sindical herdada do passado, n\u00e3o assegurava a representa\u00e7\u00e3o no CGT dos oper\u00e1rios dos novos ramos industriais \u2013 como a ind\u00fastria automobil\u00edstica \u2013 que teriam por\u00e9m papel decisivo nas lutas oper\u00e1rias do futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas debilidades do movimento oper\u00e1rio foram postas em evid\u00eancia com o desenrolar dos acontecimentos, mas n\u00e3o respondem diretamente pelo fracasso do governo Goulart. As brechas no esquema de sustenta\u00e7\u00e3o deste surgiram em consequ\u00eancia da sua pol\u00edtica reformista e da radicaliza\u00e7\u00e3o de setores populares, sem que o CGT ou a frente que ele hegemonizava pudesse impedir as a\u00e7\u00f5es de ruptura. Assim ocorreu por ocasi\u00e3o da rebeli\u00e3o dos sargentos em Bras\u00edlia, em setembro de 1963, e, logo ap\u00f3s, na mobiliza\u00e7\u00e3o popular contra o decreto de estado de s\u00edtio que Goulart prop\u00f4s ao Congresso, para fazer frente \u00e0 situa\u00e7\u00e3o. Em outubro, o funcionalismo p\u00fablico levantou-se contra a pol\u00edtica salarial, derrubando o Plano Trienal de governo, que fora j\u00e1 objeto de cr\u00edtica dos sindicatos. A tentativa de Goulart de passar a uma pol\u00edtica ofensiva, esbo\u00e7ada no com\u00edcio de 13 de mar\u00e7o de 1964, foi, al\u00e9m de tardia, um gesto inconsequente, que n\u00e3o contava com um esquema de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e militar capaz de sustent\u00e1-lo. O erro custou caro a Goulart e \u00e0s for\u00e7as que o apoiavam, mas o pre\u00e7o mais alto foi pago pela classe oper\u00e1ria<sup>3<\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">4 \u2013 O ressurgimento do classismo<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\">O regime militar, instaurado em 1\u00ba de abril de 1964, dissolveu o CGT e a FMP, assim como a UNE e as organiza\u00e7\u00f5es de massa dos militares; encarcerou dirigentes sindicais ou for\u00e7ou-os a exilar-se; interveio em grande n\u00famero nos sindicatos, principalmente os mais atuantes. O direito de greve foi praticamente suprimido. O regime de estabilidade no trabalho foi substitu\u00eddo de fato pela dispensa livre e sem justa causa \u2013 medida que o art\u00edfice da pol\u00edtica econ\u00f4mica, o ent\u00e3o ministro do Planejamento, Roberto Campos, consideraria anos depois transcendental, dado que, eliminando o chamado \u201cpassivo laboral\u201d das empresas (isto \u00e9, as indeniza\u00e7\u00f5es a serem pagas aos trabalhadores dispensados), propiciou amplamente a centraliza\u00e7\u00e3o do capital. Finalmente, a pol\u00edtica salarial passou a fixar rigidamente o sal\u00e1rio m\u00ednimo, mediante complicada e artificiosa f\u00f3rmula<sup>4<\/sup>, ao mesmo tempo que subestimava sistematicamente o fator relativo \u00e0 infla\u00e7\u00e3o projetada, o que levou o sal\u00e1rio m\u00ednimo a cair de um n\u00edvel superior a 500 cruzeiros, em 1964, a um n\u00edvel inferior a 400 cruzeiros, em 1968 (em moeda de mar\u00e7o de 1974), tend\u00eancia declinante que se manteve at\u00e9 1970<sup>5<\/sup>. Na medida em que o sal\u00e1rio m\u00ednimo regula a escala salarial em seu conjunto<sup>6<\/sup>, a imensa massa dos trabalhadores viu-se afetada pela pol\u00edtica dita de &#8220;arrocho salarial&#8221;, fato agravado pela intensa rotatividade da m\u00e3o-de-obra, que a supress\u00e3o da estabilidade permitiu<sup>7<\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<p>Com seus sindicatos desarticulados ou sob interven\u00e7\u00e3o, submetidos \u00e0 infiltra\u00e7\u00e3o policial e \u00e0 dela\u00e7\u00e3o, os trabalhadores iniciaram um paciente trabalho de reorganiza\u00e7\u00e3o, que introduziu um dado novo nomovimento oper\u00e1rio brasileiro: os comit\u00eas de f\u00e1brica, semiclandestinos, a partir dos quais foi poss\u00edvel inclusive reconquistar sindicatos. Nesse processo, tomaram a dianteira os trabalhadores dos setores industriais de recente implanta\u00e7\u00e3o \u2013 os metal\u00fargicos, particularmente os da ind\u00fastria automobil\u00edstica. Trata-se de um proletariado jovem, recrutado entre a popula\u00e7\u00e3o urbana e mesmo oper\u00e1ria, com experi\u00eancia de trabalho na ind\u00fastria e, em sua maioria, constitu\u00eddo por m\u00e3o de obra semiqualificada e qualificada, o que sup\u00f5e certo grau de instru\u00e7\u00e3o<sup>8<\/sup>. Seriam eles que assumiriam, da\u00ed por diante, a lideran\u00e7a do movimento oper\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>No contexto das mobiliza\u00e7\u00f5es populares contra a ditadura militar, que se iniciaram em 1966 e culminaram em 1968, tendo na vanguarda os estudantes (que haviam rearticulado a UNE), o movimento oper\u00e1rio reanima-se. Entre os pontos altos de sua atividade, h\u00e1 que mencionar a greve metal\u00fargica de Minas Gerais, em abril de 1968, que se prolongou por mais de uma semana; o 1\u00ba de maio em S\u00e3o Paulo, quando as massas, reunidas em pra\u00e7a p\u00fablica, expulsaram da tribuna a pedradas os representantes governamentais e promoveram seu pr\u00f3prio com\u00edcio; a greve dos metal\u00fargicos de Osasco<em>, <\/em>em S\u00e3o Paulo, em julho \u2013 a mais importante delas \u2013<em> que <\/em>levou \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o de f\u00e1bricas pelos oper\u00e1rios; e a segunda greve metal\u00fargica de Minas Gerais, em outubro, que converteu-se numa greve setorial global e coincidiu com a greve banc\u00e1ria de Belo Horizonte. Essas lutas foram cortadas pelo golpe dentro do golpe de 13 de dezembro de 1968, quando o regime militar promulgou o Ato Institucional n\u00ba 5, que conferiu ao governo poderes discricion\u00e1rios. Recrudesceu a repress\u00e3o, com novas interven\u00e7\u00f5es nos sindicatos, acompanhadas de pris\u00f5es e ex\u00edlio de dirigentes e militantes de base.<\/p>\n\n\n\n<p>1968 n\u00e3o foi s\u00f3 o ano em que a ditadura assumiu sua fei\u00e7\u00e3o definitiva. Correspondeu tamb\u00e9m ao in\u00edcio de uma nova fase de expans\u00e3o econ\u00f4mica \u2013 que o regime batizou de \u201cmilagre brasileiro\u201d \u2013 a qual se estenderia at\u00e9 1973. O per\u00edodo de crise que a precedera servira para reconverter a economia em benef\u00edcio do grande capital nacional e estrangeiro, que assumira a condu\u00e7\u00e3o do bloco dominante em 1964. Junto \u00e0 abertura da economia aos investimentos for\u00e2neos, assiste-se a uma violenta centraliza\u00e7\u00e3o do capital e ao aumento do grau de explora\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria, que \u2013 mediante o \u201carrocho salarial\u201d, a prolonga\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho e a intensifica\u00e7\u00e3o do ritmo de trabalho \u2013 \u00e9 submetida abertamente a um processo de superexplora\u00e7\u00e3o. Paralelamente, reduzem-se as barreiras alfandeg\u00e1rias, visando for\u00e7ar a eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel tecnol\u00f3gico interno, e se fomentam as exporta\u00e7\u00f5es, mediante subs\u00eddios fiscais e credit\u00edcios.<\/p>\n\n\n\n<p>Operando como capital industrial e financeiro, a grande burguesia nacional e estrangeira punha-se, assim, \u00e0 frente do conjunto da classe para integrar os dois subsistemas at\u00e9 ent\u00e3o existentes \u2013 agr\u00e1rio-exportador e manufatureiro interno \u2013 e fundir num s\u00f3 os dois ciclos de reprodu\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica que deles se originavam. Essa transforma\u00e7\u00e3o profunda da economia brasileira suprimia as bases para o padr\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es interburguesas que prevalecera no pa\u00eds desde 1930, expressando-se no corte vertical entre a fra\u00e7\u00e3o agr\u00e1rio-exportadora e a fra\u00e7\u00e3o industrial. Agora \u2013 como se havia podido ver j\u00e1 nas lutas pol\u00edticas dos anos 60 \u2013 o padr\u00e3o da luta interburguesa iria consistir nos choques de interesse entre o grande capital e as camadas burguesas m\u00e9dias e inferiores, sem que isso chegasse por\u00e9m a configurar um verdadeiro corte na luta de classes. O processo de reprodu\u00e7\u00e3o das camadas burguesas subalternas dependia em demasia do grande capital para que lhes fosse poss\u00edvel enfrent\u00e1-lo com um projeto pr\u00f3prio.<\/p>\n\n\n\n<p>O projeto de um Brasil alternativo teria que gestar-se, portanto, fora do campo burgu\u00eas, naquele espa\u00e7o onde se movem as classes exploradas da sociedade. Fora esse corte horizontal das lutas de classes que se afirmar\u00e1 na conjuntura cr\u00edtica de 1968, pondo em evid\u00eancia o papel decisivo que cabia ali a um movimento oper\u00e1rio classista. O desenvolvimento ulterior do processo social e pol\u00edtico brasileiro dependeria do modo pelo qual as distintas classes da sociedade iriam assimilar essa nova realidade e teria uma influ\u00eancia decisiva na evolu\u00e7\u00e3o do movimento oper\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">5 \u2013 Da resist\u00eancia \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\">A classe oper\u00e1ria precisou de algum tempo para recuperar-se da derrota de 1968. As condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas em que teve de faz\u00ea-lo, al\u00e9m do mais, n\u00e3o a favoreciam. A configura\u00e7\u00e3o declaradamente ditatorial que assumira o regime burgu\u00eas-militar excitou a indigna\u00e7\u00e3o dos seus quadros mais avan\u00e7ados, assim como dos setores de ponta da pequena burguesia \u2013 em particular, do movimento estudantil e de grupos de militares \u2013 levando-os a empreender uma resist\u00eancia aberta. Durante quatro anos, sucederam-se a\u00e7\u00f5es armadas urbanas, \u00e0s quais a ditadura respondia com viol\u00eancia. Qualquer ato de oposi\u00e7\u00e3o, ou mesmo de desacordo, em rela\u00e7\u00e3o ao regime era, nesse contexto, assimilado ao feroz enfrentamento que sacudia o pa\u00eds. Essa situa\u00e7\u00e3o durou at\u00e9 1972, quando a guerrilha urbana \u00e9 praticamente eliminada.<\/p>\n\n\n\n<p>O ano de 1973 corresponde ao momento de plena afirma\u00e7\u00e3o do regime militar, que \u2013 ante uma sociedade submetida e uma economia que ostentava taxas excepcionais de crescimento \u2013 cr\u00ea chegada a hora da consolida\u00e7\u00e3o. Prepara-se ele, pois, para dar in\u00edcio a uma liberaliza\u00e7\u00e3o relativa, destinada a assegurar a sua institucionaliza\u00e7\u00e3o. Mas \u00e9 ent\u00e3o que se inicia a reorganiza\u00e7\u00e3o das for\u00e7as sociais, que d\u00e3o por terminada a fase de resist\u00eancia \u2013 na qual sua vanguarda opera fora da legalidade vigente \u2013 para come\u00e7ar a de oposi\u00e7\u00e3o \u2013 isto \u00e9, da luta contra a ditadura levada a cabo nos marcos legais e institucionais do regime. Essa mudan\u00e7a de t\u00e1tica ter\u00e1 em seu posto de avan\u00e7ada aquele setor oper\u00e1rio que havia despontado j\u00e1, ao finalizar a d\u00e9cada de 1960, como o seu setor de vanguarda \u2013 os trabalhadores metal\u00fargicos.<\/p>\n\n\n\n<p>A pol\u00edtica laboral da ditadura militar consistiu em suprimir as barreiras \u00e0 explora\u00e7\u00e3o do trabalho pelo capital, dando margem a uma situa\u00e7\u00e3o que a express\u00e3o \u201ccapitalismo selvagem\u201d caracteriza bem. A jornada de trabalho foi prolongada de fato em setores ou ramos industriais mais atrasados e com baixo n\u00edvel de organiza\u00e7\u00e3o sindical \u2013 como a agricultura e a constru\u00e7\u00e3o civil \u2013; mediante o regime for\u00e7oso de horas extras, nos demais. Quando j\u00e1 era sens\u00edvel a resist\u00eancia oper\u00e1ria, um dirigente sindical insuspeito, por sua capacidade de acomoda\u00e7\u00e3o \u2013 Joaquim Santos de Andrade, do Sindicato dos Metal\u00fargicos de S\u00e3o Paulo \u2013 denunciava que, nesse ramo, \u201cos oper\u00e1rios est\u00e3o trabalhando 12 horas por dia\u201d, esclarecendo que 97% dos metal\u00fargicos de S\u00e3o Paulo tinham o seguinte regime de trabalho: 8 horas di\u00e1rias, 2 horas extraordin\u00e1rias (m\u00e1ximo permitido pela CLT, salvo casos especiais) e mais 1,36 horas di\u00e1rias sob pretexto de compensar o descanso de s\u00e1bado, descanso inexistente j\u00e1 que, nesse dia, vigorava uma jornada normal de 8 horas; em total, os oper\u00e1rios trabalhavam 66 horas semanais, ao inv\u00e9s das 48 que a lei estabelece. A isso, havia que se acrescentar a manipula\u00e7\u00e3o do sistema de turnos, que, sempre para o ramo metal\u00fargico, permitia ao patr\u00e3o apropriar-se como tempo de trabalho de 12 horas semanais do tempo de repouso do oper\u00e1rio<sup>9<\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<p>Junto \u00e0 prolonga\u00e7\u00e3o da jornada, as empresas recorriam tamb\u00e9m \u00e0 intensifica\u00e7\u00e3o do ritmo de trabalho. Sabemos que isso \u00e9 poss\u00edvel mediante dois procedimentos: o aumento dos instrumentos de trabalho que o oper\u00e1rio maneja e o aumento da velocidade das m\u00e1quinas; o segundo \u00e9 mais importante em ramos cuja produ\u00e7\u00e3o utiliza o trabalho em cadeia, como o metal\u00fargico, o que n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o seja utilizado ali tamb\u00e9m o primeiro. Uma pesquisa de campo realizada numa f\u00e1brica automobil\u00edstica de S\u00e3o Paulo, em 1974-1975, mostrou que o aumento na carga de trabalho dos oper\u00e1rios, desde sua entrada na f\u00e1brica, variava entre 20 e 50%, segundo a categoria<sup>10<\/sup>. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Indicamos j\u00e1 o car\u00e1ter constritivo da pol\u00edtica salarial. Em 1973, e em dinheiro de mar\u00e7o de 1974, apesar de que os \u00edndices de aumento haviam sido algo maiores a partir de 1971, o sal\u00e1rio m\u00ednimo real no Rio de Janeiro era de 343 cruzeiros (m\u00e9dia anual), igual portanto ao de 1968 (373 cruzeiros em ambos anos, se incluirmos o 13\u00basal\u00e1rio)<sup>11<\/sup>. O sal\u00e1rio m\u00e9dio real na ind\u00fastria evolu\u00edra de maneira um pouco mais favor\u00e1vel (28%, em rela\u00e7\u00e3o a 1969), ficando bem atr\u00e1s por\u00e9m do aumento da produ\u00e7\u00e3o (no mesmo per\u00edodo, o \u00edndice do produto industrial real elevou-se em 62%) e da produtividade do trabalho (o \u00edndice do produto industrial por trabalhador empregado na ind\u00fastria passa de 100 a 135, no per\u00edodo)<sup>12<\/sup>. Observemos que essas cifras s\u00e3o meramente indicativas, sendo poucos os estudos existentes sobre o movimento real dos sal\u00e1rios; um deles, relativo a um grupo de grandes empresas da regi\u00e3o centro-sul, indica que, entre abril de 1966 e abril de 1972, os oper\u00e1rios qualificados tiveram pequenos aumentos em seus sal\u00e1rios, enquanto que os sal\u00e1rios dos semi ou n\u00e3o-qualificados mantiveram-se constantes ou ca\u00edram em at\u00e9 8%<sup>13<\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1973, a classe oper\u00e1ria encontrava-se ainda na defensiva e a sua vanguarda de massa \u2013 os trabalhadores metal\u00fargicos do centro-sul, particularmente da ind\u00fastria automobil\u00edstica e mec\u00e2nica \u2013 apenas come\u00e7ava a reorganizar-se. Sem possibilidades ainda de pressionar os patr\u00f5es mediante o recurso por excel\u00eancia da luta oper\u00e1ria \u2013 a greve \u2013, ela iniciou a\u00e7\u00f5es de desgaste, que feririam o capital exatamente na sua avidez por mais trabalho suplementar, ou seja, obstaculizando os mecanismos de prolonga\u00e7\u00e3o da jornada e de intensifica\u00e7\u00e3o do ritmo de trabalho. O movimento mais not\u00e1vel de 1973 foi a recusa dos oper\u00e1rios qualificados da Volkswagen de fazer horas extras; durante esse ano e o que seguiu, alastrou-se no ramo metal\u00fargico paulista e se estendeu a outros ramos e regi\u00f5es a resist\u00eancia surda do operariado, mediante protestos, paradas e opera\u00e7\u00f5es-tartaruga.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1974, com a mudan\u00e7a institucional de governo, a a\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria pode passar ao terreno da reivindica\u00e7\u00e3o salarial aberta. A den\u00fancia do novo chefe da equipe econ\u00f4mica governamental, M\u00e1rio Henrique Simonsen, no sentido de que os \u00edndices de infla\u00e7\u00e3o de 1973 haviam sido falseados para justificar cortes nos aumentos de sal\u00e1rios, deu ao proletariado o motivo para desencadear uma campanha pela reposi\u00e7\u00e3o salarial. A ascens\u00e3o das lutas oper\u00e1rias tomou assim outro car\u00e1ter: no in\u00edcio, as a\u00e7\u00f5essurgiram de modo quase espont\u00e2neo, mediante a articula\u00e7\u00e3o incipiente de \u00f3rg\u00e3os de base clandestinos, agora os sindicatos eram empurrados pelas bases e moviam-se \u00e0 luz do dia, sob a cobertura que lhes dava a confiss\u00e3o do pr\u00f3prio regime.<\/p>\n\n\n\n<p>A relegitima\u00e7\u00e3o do movimento sindical acentuou-se nos anos seguintes, num contexto caracterizado pelo processo de distens\u00e3o pol\u00edtica \u2013 que seu gestor, o ent\u00e3o presidente da Rep\u00fablica, General Ernesto Geisel, qualificou de \u201clento, gradual e seguro\u201d. A distens\u00e3o, primeira fase da redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, deve-se a um conjunto de fatores, de \u00edndole muito diversa. Indicamos j\u00e1 que a desarticula\u00e7\u00e3o da esquerda \u2013 a partir da repress\u00e3o \u00e0 luta armada \u2013 e a expans\u00e3o econ\u00f4mica predispunham j\u00e1 o regime, em 1973, a avan\u00e7ar nesse sentido. Isso se dava e com mais raz\u00e3o ainda porque ele pretendia concretizar enfim o ideal subimperialista que o animara desde o seu nascimento; o acordo nuclear com a Alemanha Federal, em 1975, e o protocolo de consultas m\u00fatuas, firmado com os Estados Unidos, pela m\u00e3o de Kissinger, em 1976, assim o demonstrariam. Essas pretens\u00f5es a uma hegemonia subordinada exigiam a institucionaliza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds nos moldes liberal-democr\u00e1ticos, pr\u00f3prios ao capitalismo desenvolvido \u2013 embora os militares concebessem isso, naquele momento, de maneira bastante restritiva. A ascens\u00e3o de James C\u00e1rter \u00e0 presid\u00eancia dos Estados Unidos, dando nova \u00eanfase \u00e0 quest\u00e3o dos direitos humanos, refor\u00e7aria essa tend\u00eancia, tanto quanto a rela\u00e7\u00e3o privilegiada que o regime militar procurou estabelecer com o governo germano-ocidental, ent\u00e3o em m\u00e3os da social-democracia.<\/p>\n\n\n\n<p>Internamente, as press\u00f5es da sociedade civil tamb\u00e9m se acentuavam. Desde a primeira alta dos pre\u00e7os do petr\u00f3leo, o suposto \u201cmilagre brasileiro\u201d mostrou ter p\u00e9s de barro. Com efeito, ainda que a expans\u00e3o do capital industrial e o desenvolvimento do capital financeiro, desde 1967, houvessem favorecido certa homogeneiza\u00e7\u00e3o da grande burguesia e a afirma\u00e7\u00e3o de sua hegemonia sobre o conjunto da economia, esta n\u00e3o superava inteiramente a desarticula\u00e7\u00e3o que afetava o seu esquema de reprodu\u00e7\u00e3o. \u00c9 certo que as exporta\u00e7\u00f5es haviam aumentado visivelmente, passando, entre 1964 e 1973, de um total inferior a 1.5 bilh\u00e3o a mais de 6 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. A ind\u00fastria havia participado nisso de maneira absoluta e relativa \u2013 as exporta\u00e7\u00f5es de manufaturados elevando-se de algo menos de 100 milh\u00f5es de d\u00f3lares, em 1964, equivalentes a 7% do total, a 1.8 bilh\u00e3o, em 1968, quase 30% do total \u2013 e a agricultura diversificara as suas, incluindo, ao lado do caf\u00e9 e outros itens tradicionais, novos produtos, em particular a soja. Mas esse processo n\u00e3o havia implicado uma homogeneiza\u00e7\u00e3o perfeita da esfera de circula\u00e7\u00e3o, que continuava diferenciando o mercado externo do interno, com o que se acentuavam as disparidades da esfera produtiva, j\u00e1 a n\u00edvel dos setores e ramos (marcadamente na agricultura, onde se aprofundava o corte entre a produ\u00e7\u00e3o para a expor- ta\u00e7\u00e3o e a produ\u00e7\u00e3o para mercado interno), j\u00e1 ao n\u00edvel das empresas (a grande empresa industrial e os grandes grupos comerciais a\u00e7ambarcando os frutos do com\u00e9rcio exterior).<\/p>\n\n\n\n<p>Essa homogeneiza\u00e7\u00e3o imperfeita da esfera de circula\u00e7\u00e3o resultava diretamente da superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho no plano da produ\u00e7\u00e3o, que \u2013 induzindo a concentra\u00e7\u00e3o de renda \u2013 repercutia no mercado interno atrav\u00e9s de agrava\u00e7\u00e3o das brechas entre a esfera alta e a esfera baixa de circula\u00e7\u00e3o: enquanto a primeira \u2013 formada pelo consumo dos capitalistas, das classes m\u00e9dias e, eventualmente, em fases de expans\u00e3o, de uma pequena fra\u00e7\u00e3o do proletariado \u2013 assimilava-se ao com\u00e9rcio exterior, pela estrutura de bens que a compunham e pelo seu dinamismo, a esfera baixa \u2013 inteiramente criada pelos sal\u00e1rios \u2013 se afastava, modificando mais lentamente a sua composi\u00e7\u00e3o e mantendo-se deprimido. Recordemos, neste sentido, que, entre 1960 e 1970, os 5% mais ricos da popula\u00e7\u00e3o aumentaram sua participa\u00e7\u00e3o na renda global de 27.3 a 36.3%, e os 80% mais pobres diminu\u00edram a sua de 45.5 a 36.8%, enquanto a dos 15% m\u00e9dios manteve-se est\u00e1vel, com 27%. Entende-se assim que, entre 1964 e 1970, o \u00edndice da produ\u00e7\u00e3o industrial de um ramo como o t\u00eaxtil se reduzisse de 101.6 a 97.2 ou, em vestu\u00e1rio e cal\u00e7ado, se mantivesse estancado, em torno a 113; ind\u00fastrias de bens-sal\u00e1rio como estas \u00faltimas s\u00f3 se dinamizariam, nos anos 70, ao vincular-se ao mercado exterior.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">6 \u2013 A nova ascens\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\">A dial\u00e9tica da depend\u00eancia brasileira levava-a assim a modificar a sua forma, n\u00e3o a sua configura\u00e7\u00e3o profunda. Em sua express\u00e3o definitiva, essa depend\u00eancia \u00e9 o resultado de uma economia capitalista incompleta, que n\u00e3o foi capaz por isso mesmo de desenvolver plenamente a forma valor enquanto dinheiro. A moeda nacional funciona internamente como meio de circula\u00e7\u00e3o e de pagamento \u2013 at\u00e9 mesmo, embora insuficientemente, como reserva de valor \u2013 mas n\u00e3o chega a revestir o car\u00e1ter de dinheiro mundial; em consequ\u00eancia, as rela\u00e7\u00f5es da economia interna com o mercado internacional ficam condicionadas \u00e0s disponibilidades em moedas estrangeiras que tenham esse car\u00e1- ter. No Brasil de meados dos 70, a estrutura produtiva seguia dependendo da importa\u00e7\u00e3o de m\u00e1quinas, tecnologia e mat\u00e9rias-primas essenciais \u2013 modificando-se apenas o seu grau de sofistica\u00e7\u00e3o e o seu volume \u2013 que era financiada pelas exporta\u00e7\u00f5es \u2013 agora incluindo tamb\u00e9m produtos manufaturados e produtos agr\u00edcolas novos \u2013 fixando estas, portanto, o limite da acumula\u00e7\u00e3o de capital. Para flexibiliz\u00e1-lo, se assistir\u00e1 nos anos 70 a um certo esfor\u00e7o de substitui\u00e7\u00e3o na presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os (como no transporte mar\u00edtimo) e de exporta\u00e7\u00e3o de capital para o exterior, embora esta \u00faltima \u2013 tendo o Estado como principal protagonista \u2013 se concentrasse sobretudo na cria\u00e7\u00e3o de uma infraestrutura capaz de acelerar a circula\u00e7\u00e3o externa de mercadorias, via expans\u00e3o banc\u00e1ria ou financiamento de obras e compras no exterior, e s\u00f3 embrionariamente desse origem \u00e0 transfer\u00eancia real de dinheiro e tecnologia (que \u00e9 o que poderia de fato promover transfer\u00eancias l\u00edquidas em sentido inverso). Mas esse esfor\u00e7o era insuficiente, para as pretens\u00f5es de grandeza do regime e para a avidez de lucro do capital que operava no Brasil, levando-os a recorrer ao mecanismo tradicional da depend\u00eancia para ampliar o raio da acumula\u00e7\u00e3o de capital: os investimentos estrangeiros. No mundo capitalista dos anos 70, esses investimentos assumiram prioritariamente a forma de empr\u00e9stimos e financiamentos, motivando o crescimento exponencial da d\u00edvida externa e levando o pa\u00eds a so\u00e7obrar, a princ\u00edpios da d\u00e9cada seguinte, na maior crise financeira da sua hist\u00f3ria, que acentuou de maneira brutal os tra\u00e7os fortes da sua depend\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>As dificuldades que come\u00e7ou a enfrentar a economia brasileira, a partir de 1974, e que configurariam logo uma situa\u00e7\u00e3o recessiva, exacerbaram, como ocorre sempre, as diverg\u00eancias de interesses das classes e grupos sociais, provocando movimentos nas bases de sustenta\u00e7\u00e3o do Estado e for\u00e7ando-o progressivamente a buscar medidas de descompress\u00e3o. \u00c0 classe oper\u00e1ria, que se mobilizava desde 1973, somou-se a intranquilidade crescente da pequena burguesia \u2013 que via amea\u00e7ados os seus privil\u00e9gios na esfera do consumo \u2013 e da pr\u00f3pria burguesia, a qual, no contexto de uma campanha contra a interven\u00e7\u00e3o do Estado na economia, come\u00e7ou a destacar no seu interior os primeiros grupos industriais favor\u00e1veis ao controle direto do aparelho estatal, com prescind\u00eancia da intermedia\u00e7\u00e3o militar, tend\u00eancia que se acentuaria \u00e0 medida que o capital financeiro aumentasse sua press\u00e3o, via taxa de juros, para apropriar-se da mais-valia gerada na produ\u00e7\u00e3o. Nas elei\u00e7\u00f5es gerais de 1974, o tr\u00e2nsito das lutas sociais brasileiras da resist\u00eancia \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o se concretizaria, unindo-se as for\u00e7as descontentes para descarregar seus votos, por primeira vez, no \u00fanico partido legal opositor \u2013 o Movimento Democr\u00e1tico Brasileiro (MDB). Configurava-se, assim, uma frente pol\u00edtica integrada pela pequena burguesia, setores da burguesia e pela classe oper\u00e1ria, e respaldada pela Igreja Cat\u00f3lica, que trazia pela m\u00e3o o movimento sindical rural, o campesinato organizado e as associa\u00e7\u00f5es populares urbanas, em cuja organiza\u00e7\u00e3o ela tinha investido not\u00e1vel esfor\u00e7o. Desde esse momento, a redemocratiza\u00e7\u00e3o convertia-se numa exig\u00eancia da luta de classes no pa\u00eds, que o regime militar podia aspirar a moderar e dirigir, mas n\u00e3o tinha mais condi\u00e7\u00f5es para impedir.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a conjuntura de 1977 \u2013 que vira acentuar-se a reorganiza\u00e7\u00e3o e o descontentamento da classe oper\u00e1ria, ao mesmo tempo em que a pequena burguesia se lan\u00e7ava \u00e0 campanha pela anistia aos presos e exilados pol\u00edticos \u2013 o ano de 1978 propiciou o primeiro enfrentamento direto do movimento oper\u00e1rio com o patronato e com a ditadura militar: a greve na ind\u00fastria automobil\u00edstica, que, iniciada em S\u00e3o Bernardo, se estenderia logo \u00e0s demais \u00e1reas industriais da Grande S\u00e3o Paulo. Primeiro grande movimento grevista depois de 1968, ela p\u00f4s \u00e0 mostra uma classe oper\u00e1ria l\u00facida, disciplinada e combativa. A pr\u00f3pria forma da mobiliza\u00e7\u00e3o constitu\u00eda um fato novo no Brasil: num contexto que favorecia a dispensa dos grevistas pelos patr\u00f5es e que dificultava a ocupa\u00e7\u00e3o das f\u00e1bricas, os oper\u00e1rios n\u00e3o abandonaram o trabalho, limitando-se a permanecer de bra\u00e7os cruzados ao lado das m\u00e1quinas paradas, numa ocupa\u00e7\u00e3o de fato, durante o tempo necess\u00e1rio (uma semana, na Ford). A dire\u00e7\u00e3o do movimento manteve-se nas m\u00e3os dos sindicatos \u2013 que se haviam fortalecido a partir da campanha pela reposi\u00e7\u00e3o salarial, registrando-se, na ind\u00fastria automobil\u00edstica e somente no ano de 1978, um crescimento nos efetivos sindicais que foi de 20% na Chrysler, mais de 25% na Ford, 16% na Mercedes e mais de 10% na Volkswagen<sup>14<\/sup> \u2013 que mostraram contar com um apoio efetivo das bases e refor\u00e7aram sua liga\u00e7\u00e3o com elas, mediante a utiliza\u00e7\u00e3o de delegados, n\u00facleos de a\u00e7\u00e3o e comiss\u00f5es coordenadoras. O movimento confirmou o papel de vanguarda dos oper\u00e1rios metal\u00fargicos e ratificou a import\u00e2ncia da empresa como centro de atividade sindical, j\u00e1 que \u2013 como se esbo\u00e7ara em 1968 \u2013 n\u00e3o se baseou na mobiliza\u00e7\u00e3o da categoria mas, antes, na a\u00e7\u00e3o tendo como eixo o estabelecimento fabril.<\/p>\n\n\n\n<p>A greve metal\u00fargica de maio de 78 centralizou a aten\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o nacional, acentuou a ativa\u00e7\u00e3o da pequena burguesia e setores populares e gerou um per\u00edodo de agita\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria, que se espraiou de S\u00e3o Paulo aos demais centros industriais, em particular do centro-sul.<\/p>\n\n\n\n<p>Os oper\u00e1rios industriais mantiveram a lideran\u00e7a absoluta das mobiliza\u00e7\u00f5es, realizando tr\u00eas quartas partes das greves efetivadas no per\u00edodo, mas todos os demais setores foram tamb\u00e9m atingidos:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"339\" src=\"https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-22.49.43-1024x339.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-3786\" srcset=\"https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-22.49.43-1024x339.png 1024w, https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-22.49.43-300x99.png 300w, https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-22.49.43-768x254.png 768w, https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-22.49.43.png 1161w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>1979 marcou o ponto alto do ciclo iniciado em 1974. A mudan\u00e7a de governo, com a designa\u00e7\u00e3o do general Jo\u00e3o Baptista Figueiredo, impulsou o processo de redemocratiza\u00e7\u00e3o para sua segunda fase \u2013 a de abertura \u2013, com a decreta\u00e7\u00e3o de uma anistia relativamente ampla. No plano institucional, a abertura iria prosseguir, nos anos seguintes, atrav\u00e9s da reformula\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria de 1980, que flexibilizou o quadro partid\u00e1rio, as elei\u00e7\u00f5es gerais de 1982 e a tomada de posse dos dez governadores estaduais eleitos pela oposi\u00e7\u00e3o, em mar\u00e7o de 1983. Em meio a certa resist\u00eancia de setores militares descontentes e algumas manobras desestabilizadoras, a sucess\u00e3o presidencial acabaria por normalizar-se em novembro de 1984, para permitir, em janeiro do ano seguinte, a designa\u00e7\u00e3o de um civil e representante da oposi\u00e7\u00e3o \u2013 Tancredo Neves \u2013 para a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. Observemos ainda que 1979 foi tamb\u00e9m o ano em que a crise estrutural da economia, depois de permitir uma breve melhoria dos indicadores econ\u00f4micos, leva-os a uma queda brusca e, logo de uma melhoria aparente em 1980, desemboca finalmente em violenta recess\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em abril, depois de intensa prepara\u00e7\u00e3o, os metal\u00fargicos do ABC entram em greve, mobilizando cerca de 200.000 oper\u00e1rios. Desta vez, cancelado o elemento surpresa, os grevistas n\u00e3o puderam proceder \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o branca das f\u00e1bricas, que haviam realizado em 1978, sendo for\u00e7ados a lan\u00e7ar m\u00e3o de piquetes, que a pol\u00edcia hostilizava ferozmente. A posi\u00e7\u00e3o do governo rec\u00e9m-empossado era mais dura e ele procedeu \u00e0 interven\u00e7\u00e3o dos tr\u00eas sindicatos nelas envolvidos, ao entrar a greve na sua segunda semana, destituindo e prendendo seus dirigentes. A grande organiza\u00e7\u00e3o dos grevistas, que contavam com dire\u00e7\u00f5es alternativas para fazer frente a essa eventualidade e com comiss\u00f5es de greve bem estruturadas, assim como sua disposi\u00e7\u00e3o combativa, permitiu-lhes manter o movimento ainda por quatro dias, para concluir afinal uma tr\u00e9gua com os patr\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA greve \u2013 assinala um autor \u2013 n\u00e3o foi um \u00eaxito total para os oper\u00e1rios. Os tr\u00eas sindicatos se viram muito pr\u00f3ximos de uma s\u00e9ria derrota e for\u00e7ados a aceitar uma solu\u00e7\u00e3o de compromisso. Ao fim de tr\u00eas meses de negocia\u00e7\u00f5es dif\u00edceis, os termos do acordo eram apenas marginalmente melhores do que haviam sido antes da interven\u00e7\u00e3o. A greve foi, entretanto, uma s\u00e9ria derrota para os patr\u00f5es e o Estado. Em vez de p\u00f4r fim \u00e0 greve com a interven\u00e7\u00e3o nos sindicatos, o Estado presenciou os l\u00edderes depostos continuarem \u00e0 frente do movimento. O Estado viu-se for\u00e7ado a reconhecer os l\u00edderes de- postos como os leg\u00edtimos representantes dos oper\u00e1rios e viu-se for\u00e7ado a aceitar que sem esses l\u00edderes o movimento no ABC traria ainda mais problemas a curto prazo. Ou seja: o movimento podia continuar a existir sem os l\u00edderes sindicais: a interven\u00e7\u00e3o n\u00e3o podia produzir o efeito desejado. Os patr\u00f5es, cujo objetivo era infringir uma derrota pesada aos sindicatos, a fim de inverter os avan\u00e7os conseguidos por eles e de recuperar o que havia cedido em maio de 1978, viram-se no final com um sindicato com mais credibilidade do que nunca\u201d<sup>15<\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<p>Em todo o pa\u00eds, o movimento reivindicativo alastrou-se, fazendo subir o n\u00famero de greves:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"310\" src=\"https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-22.52.02-1024x310.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-3787\" srcset=\"https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-22.52.02-1024x310.png 1024w, https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-22.52.02-300x91.png 300w, https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-22.52.02-768x233.png 768w, https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-22.52.02.png 1070w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>O quadro acima mostra que o aumento de greves em 1979 deve-se sobretudo \u00e0 acelera\u00e7\u00e3o do movimento reivindicativo nos setores de servi\u00e7os, classe m\u00e9dia assalariada e n\u00e3o assalariada, diminuindo as greves dos oper\u00e1rios industriais. Essa redu\u00e7\u00e3o compensa-se, em certa medida, pelo aumento relativo das greves promovidas por grupos de empresas ou por categoria, que implica uma mobiliza\u00e7\u00e3o maior de efetivos e representa um elemento favor\u00e1vel \u00e0 resist\u00eancia ante uma repress\u00e3o governamental incrementada. Assim, no total das greves de oper\u00e1rios industriais, as greves por estabelecimento equivaleram a 92,3% em 1978, caindo para 72,5% em 1979; nos demais setores, as greves por categoria apresentam um peso muito superior: 46,1% na constru\u00e7\u00e3o civil, 71,4% nos servi\u00e7os, 54,9% para os assalariados de classe m\u00e9dia e 94,1% para os n\u00e3o assalariados, em 1979, sendo que, nos anos seguintes, manter\u00e3o sua import\u00e2ncia sobretudo para os tr\u00eas \u00faltimos, devido \u00e0 menor capacidade de barganha de que eles disp\u00f5em<sup>16<\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<p>A ascens\u00e3o do movimento reivindicativo dos trabalhadores, em 1979, for\u00e7ou o regime a modificar, pela primeira vez, sua pol\u00edtica salarial, abandonando o \u201carrocho\u201d que se estabelecera em 1965. A nova lei salarial, com vig\u00eancia a partir de 1\u00ba de novembro, eliminou a f\u00f3rmula que atrelava os sal\u00e1rios ao res\u00edduo salarial (ou infla\u00e7\u00e3o projetada), a indexa\u00e7\u00e3o, passando a basear-se num novo \u00edndice de pre\u00e7os \u2013 o \u00cdndice Nacional de Pre\u00e7os ao Consumidor (INPC), estabelecido mensalmente em fun\u00e7\u00e3o de uma amostra de fam\u00edlias que ganham at\u00e9 5 sal\u00e1rios m\u00ednimos. Os reajustes salariais deixaram de ser anuais, para volver-se semestrais, e garantiam 10% acima do INPC para os trabalhadores que ganhavam at\u00e9 3 sal\u00e1rios m\u00ednimos e um aumento igual ao INPC para os que recebiam at\u00e9 10 sal\u00e1rios m\u00ednimos, sendo progressivamente inferior para as faixas mais altas; modifica\u00e7\u00f5es menores posteriores n\u00e3o alterariam esse quadro (que s\u00f3 seria modificado em 1983, para ceder \u00e0s imposi\u00e7\u00f5es do Fundo Monet\u00e1rio Internacional)<sup>17<\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo em que cedia no terreno salarial, o governo endurecia, por\u00e9m, sua pol\u00edtica repressiva. A greve metal\u00fargica do ABC de 1980 realizou-se sob violenta press\u00e3o governamental, que dissolveu pela for\u00e7a piquetes e manifesta\u00e7\u00f5es, interveio nos sindicatos, prendeu e enquadrou seus l\u00edderes na Lei de Seguran\u00e7a Nacional. Nem a presen\u00e7a do Papa, em visita ent\u00e3o ao Brasil, moderou a atua\u00e7\u00e3o do Governo, embora a Igreja Cat\u00f3lica, em particular seus representantes m\u00e1ximos em S\u00e3o Paulo e no ABC, tivesse hipotecado seu efetivo apoio e solidariedade aos grevistas; pelo contr\u00e1rio, o governo estabeleceu com o clero um n\u00edvel tal de enfrentamento, que chegou a ventilar-se a possibilidade de que o bispo de Santo Andr\u00e9 \u2013 que assumira publicamente a gest\u00e3o do fundo de greve, ap\u00f3s a interven\u00e7\u00e3o no sindicato \u2013 fosse processado tamb\u00e9m por crime contra a seguran\u00e7a nacional. A atitude do governo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Igreja e o interesse dos pol\u00edticos de oposi\u00e7\u00e3o no prosseguimento da abertura \u2013 ent\u00e3o na fase de reformula\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria \u2013 cerraram aos grevistas a possibilidade de obter outros apoios, levando finalmente \u00e0 suspens\u00e3o da greve. Esses dois elementos \u2013 o abrandamento da pol\u00edtica salarial e a repress\u00e3o governamental \u2013 bastariam j\u00e1 para explicar o comportamento dos movimentos grevistas em 1980. Nesse ano, o total de greves caiu para 58 (apenas 19 realizadas por oper\u00e1rios industriais); a recupera\u00e7\u00e3o posterior do movimento n\u00e3o lhe permitiria voltar a ostentar o dinamismo de 1979.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">7 \u2013 As duas tend\u00eancias<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\">Um outro fator entraria tamb\u00e9m a influir no movimento oper\u00e1rio, contribuindo a frear a sua ascens\u00e3o enquanto movimento social: o processo de reorganiza\u00e7\u00e3o em que se empenha ent\u00e3o e as repercuss\u00f5es que nele ter\u00e1 a reacomoda\u00e7\u00e3o das for\u00e7as pol\u00edticas, ap\u00f3s a reformula\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria. Desde 1980, \u00e9 vis\u00edvel a agita\u00e7\u00e3o reinante no ambiente sindical em torno \u00e0 revis\u00e3o da estrutura sindical e \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de uma central \u00fanica, realizando-se, no decorrer do ano, reuni\u00f5es com esse fim, entre as quais o Encontro Nacional das Oposi\u00e7\u00f5es Sindicais (Enos) e o I Encontro Nacional de Trabalhadores em Oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 Estrutura Sindical (Entoes), assim como a cria\u00e7\u00e3o da Articula\u00e7\u00e3o Nacional do Movimento Sindical e Popular (Anampos), de curta vida. A 21 de mar\u00e7o de 1981, \u00cd83 entidades reunidas em S\u00e3o Paulo lan\u00e7am a convocat\u00f3ria da I Confer\u00eancia das Classes Trabalhadoras (Conclat), criam a Comiss\u00e3o Executiva Nacional (CEN) encarregada de concretiz\u00e1-la, e estabelecem o seu tem\u00e1rio (que compreendia seis pontos: reivindica\u00e7\u00f5es e legisla\u00e7\u00e3o trabalhista, sindicalismo, previd\u00eancia social, pol\u00edtica salarial e econ\u00f4mica, pol\u00edtica agr\u00e1ria e problemas nacionais), e fixam os crit\u00e9rios de participa\u00e7\u00e3o. As palavras de ordem para a campanha preparat\u00f3ria da Conclat eram: estabilidade no emprego; sal\u00e1rio m\u00ednimo real unificado; reforma agr\u00e1ria; liberdades democr\u00e1ticas; liberdade e autonomia sindical<sup>18<\/sup>. Nesse mesmo ano, entre maio e junho, foi poss\u00edvel realiz\u00e1-los, involucrando 908 entidades, entre federa\u00e7\u00f5es, sindicatos rurais e urbanos, associa\u00e7\u00f5es pr\u00e9-sindicais e profissionais.<\/p>\n\n\n\n<p>A I Conclat realizou-se em Praia Grande, S\u00e3o Paulo, de 26 a 28 de agosto de 1981, com a presen\u00e7a de 1.091 entidades, representadas por 5.036 delegados e respaldadas por 12 milh\u00f5es de trabalhadores.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"487\" src=\"https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-22.56.43-1024x487.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-3788\" srcset=\"https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-22.56.43-1024x487.png 1024w, https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-22.56.43-300x143.png 300w, https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-22.56.43-768x365.png 768w, https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-22.56.43.png 1087w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>O quadro acima evidencia predomin\u00e2ncia das entidades de base, somando os delegados das federa\u00e7\u00f5es e confedera\u00e7\u00f5es (Confedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Trabalhadores na Agricultura do Brasil; Confedera\u00e7\u00e3o dos Professores do Brasil; Confedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Trabalhadores em Comunica\u00e7\u00e3o e Publicidade; Confedera\u00e7\u00e3o dos Trabalhadores em Transportes Mar\u00edtimos, Fluviais e A\u00e9reos) cerca de 4%. Mostra tamb\u00e9m que os sindicatos urbanos, que representam 43% do total, contaram com uma representa\u00e7\u00e3o proporcionalmente superior (60% dos delegados), ocorrendo o inverso com os sindicatos rurais, provavelmente pelos crit\u00e9rios de participa\u00e7\u00e3o adotados, que favoreciam as pequenas entidades (at\u00e9 2.000 afiliados: 1 representante por 1.000; at\u00e9 10.000. 1 por 2.000 e assim sucessivamente). N\u00e3o permite finalmente detalhar, nos sindicatos urbanos, quais os que correspondiam aos oper\u00e1rios industriais (ind\u00fastria de transforma\u00e7\u00e3o, transporte e servi\u00e7os b\u00e1sicos), aos da constru\u00e7\u00e3o civil e aos servi\u00e7os (banc\u00e1rios, comerci\u00e1rios, etc.).<\/p>\n\n\n\n<p>As principais resolu\u00e7\u00f5es da I Conclat consistiram na aprova\u00e7\u00e3o do Plano de Lutas, ou plataforma de a\u00e7\u00e3o; na fixa\u00e7\u00e3o do Dia Nacional de Luta, marcado para 1\u00ba de outubro, com a recomenda\u00e7\u00e3o expressa de que se discutiria ent\u00e3o em todo o pa\u00eds a realiza\u00e7\u00e3o de uma greve geral, e na cria\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o Nacional Pr\u00f3-CUT, destinada a avan\u00e7ar no processo de forma\u00e7\u00e3o de uma central \u00fanica de trabalhadores, a ser constitu\u00edda num Congresso das Classes trabalhadoras (Conclat), a realizar-se em agosto do ano seguinte. Apesar desses acordos, o conclave n\u00e3o foi um mar de rosas: cristalizaram ali duas tend\u00eancias, cujo enfrentamento anularia ulteriormente a maior parte das decis\u00f5es tomadas, come\u00e7ando pela Comiss\u00e3o Pr\u00f3-CUT, que funcionaria com extrema dificuldade e poucos resultados pr\u00e1ticos produziria. Essa divis\u00e3o nascia no plano sindical, mas se projetava na esfera pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>De um lado, estava a lideran\u00e7a dos metal\u00fargicos do ABC, destacando-se a personalidade de Luiz In\u00e1cio da Silva (Lula), que encabe\u00e7ava um bloco minorit\u00e1rio mas combativo, de composi\u00e7\u00e3o urbana e formado por entidades de base. Sua ideologia enfatizava a a\u00e7\u00e3o direta das massas; questionava as alian\u00e7as de classes fora do campo popular (excluindo, pois, qualquer tipo de acordo com a burguesia), negava legitimidade \u00e0 estrutura sindical vigente, propondo sua imediata reformula\u00e7\u00e3o; e, naturalmente, assumia uma postura radicalmente contr\u00e1ria ao regime militar. Essa posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o derivava de uma concep\u00e7\u00e3o te\u00f3rica definida, o que a faria vulner\u00e1vel \u00e0s disputas de pequenos grupos e a levaria a amalgamar atitudes contradit\u00f3rias. Sob certo ponto de vista, e na medida em que tendia a ignorar a especificidade do social e do pol\u00edtico, bem como suas media\u00e7\u00f5es, ela retomava a tradi\u00e7\u00e3o classista e libert\u00e1ria do anarco-sindicalismo, no contexto de uma motiva\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, que a levou a erigir-se em partido \u2013 o Partido dos Trabalhadores (PT).<\/p>\n\n\n\n<p>De outro lado, situava-se a tend\u00eancia conhecida como Unidade Sindical (ou, como a alcunhou o PT, \u201cBloco da Reforma\u201d), cuja figura central era tamb\u00e9m um dirigente metal\u00fargico \u2013 Joaquim Santos de Andrade, do Sindicato dos Metal\u00fargicos de S\u00e3o Paulo, antigo \u201cpelego\u201d, cujo reinado de vinte anos passa da acomoda\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica laboral da ditadura militar \u00e0 milit\u00e2ncia nas hostes mais liberais da oposi\u00e7\u00e3o. Agrupando as lideran\u00e7as de c\u00fapula da estrutura sindical, encasteladas nas federa\u00e7\u00f5es e confedera\u00e7\u00f5es, e contando com forte apoio no sindicalismo rural \u2013 via Contag \u2013 e nas entidades de assalariados de classe m\u00e9dia \u2013 em particular o funcionalismo p\u00fablico \u2013, a Unidade Sindical preferia a a\u00e7\u00e3o por cima, buscava a alian\u00e7a com a burguesia oposicionista e considerava a estrutura sindical vigente um instrumento \u00fatil e necess\u00e1rio na atual fase de organiza\u00e7\u00e3o do proletariado brasileiro; sua \u00fanica coincid\u00eancia com a corrente petista era a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura militar. Integrando o Partido do PMDB \u2013 resultante do antigo MDB, exclu\u00eddos os seus setores minorit\u00e1rios que constituem o PT e o Partido Democr\u00e1tico Trabalhista (PDT), liderado este por Leonel Brizola \u2013, a Unidade Sindical constituir-se-\u00e1 ali numa pe\u00e7a chave e ligar\u00e1 seu destino ao processo de hegemoniza\u00e7\u00e3o desse partido pela burguesia oposicionista, comvistas \u00e0 reconquista do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 natural, nestas circunst\u00e2ncias, que a conjuntura eleitoral de 1982 acirrasse as diverg\u00eancias entre as duas correntes e tornasse impratic\u00e1vel a realiza\u00e7\u00e3o do Conclat na data prevista, o m\u00eas de agosto. Por iniciativa da Unidade Sindical, o evento foi adiado. Em setembro, produziu-se a primeira rachadura, na reuni\u00e3o da Comiss\u00e3o Pr\u00f3-CUT, em Bras\u00edlia; al\u00e9m da retirada de alguns representantes do bloco petista, sob a alega\u00e7\u00e3o de que seu mandato expirava em agosto, a Unidade Sindical for\u00e7ou a aprova\u00e7\u00e3o de resolu\u00e7\u00f5es que refor\u00e7avam o poder das Federa\u00e7\u00f5es e Confedera\u00e7\u00f5es na Comiss\u00e3o, subtraindo-as \u00e0 legitima\u00e7\u00e3o pelas bases; ampliavam-na em detrimento dos Estados onde era mais forte a penetra\u00e7\u00e3o petista e indicavam como data para o Conclat agosto de 1983. A situa\u00e7\u00e3o foi contornada, por\u00e9m, e nova reuni\u00e3oda Comiss\u00e3o, com presen\u00e7a dos dois blocos, realizou-se a 27 de novembro, decidindo realizar o Conclat a 26, 27 e 28 de agosto de 1983, com cria\u00e7\u00e3o do CUT na agenda, e recompor a pr\u00f3pria Comiss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">8 \u2013 A divis\u00e3o sindical<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\">O ano de 1983 come\u00e7ou com os preparativos para os encontros ou congressos estaduais (ENCLATs &#8211; CECLATs), realizando-se estes entre abril e agosto, a maioria deles elegendo representantes ao Conclat. \u00c0 diferen\u00e7a de 1981, as reuni\u00f5es realizaram-se em todo o pa\u00eds, totalizando 25 unidades da Federa\u00e7\u00e3o, e com uma participa\u00e7\u00e3o sensivelmente maior de entidades e delegados. A 21 de julho, com a participa\u00e7\u00e3o unit\u00e1ria das duas correntes, realizou-se o chamado \u201cDia Nacional de Greves com manifesta\u00e7\u00f5es\u201d, que tem resultados desiguais e, em todo caso, limitados.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a conjuntura social e pol\u00edtica era dif\u00edcil: desde fins de 1982, imerso na maior crise de sua hist\u00f3ria moderna, o pa\u00eds cedera \u00e0s press\u00f5es internacionais e recorrera ao FMI. As consequ\u00eancias da crise, com o alastramento de desemprego e endurecimento da pol\u00edtica econ\u00f4mica do Governo, na dire\u00e7\u00e3o exigida pelo FMI, agravaram os conflitos laborais. Ao mesmo tempo que interveio, em junho, em cinco sindicatos, para conter um estouro grevista, o governo tratava de impor ao Congresso a revis\u00e3o da pol\u00edtica salarial, com o fim de restabelecer o \u201carrocho\u201d, o que acabaria por dar resultados em outubro. Nesse contexto, produz-se a divis\u00e3o do movimento sindical: depois de tempestuosa reuni\u00e3o no Sindicato dos Metal\u00fargicos de S\u00e3o Paulo, a 14 de agosto, \u00e0s v\u00e9speras pois da data marcada para o Conclat, a Comiss\u00e3o Pr\u00f3-CUT quebrou-se em dois blocos: de um lado, o setor liderado pela Unidade Sindical, que adia a realiza\u00e7\u00e3o do Congresso por 60 dias e dissolve praticamente a Comiss\u00e3o numa reuni\u00e3o ampliada, fixada para a semana seguinte; de outro, o bloco petista, que confirma a realiza\u00e7\u00e3o do Congresso na data fixada, em S\u00e3o Bernardo.<\/p>\n\n\n\n<p>O Conclat realizado em S\u00e3o Bernardo, a 26 e 27 de agosto de 1983, al\u00e9m de estabelecer novo Plano de Lutas e decidir a realiza\u00e7\u00e3o de uma greve geral, cria a CUT, aprovando seus Estatutos e elegendo sua dire\u00e7\u00e3o, e fixa a data de agosto do ano seguinte para a realiza\u00e7\u00e3o de seu Congresso Nacional. Um crit\u00e9rio mais flex\u00edvel de representa\u00e7\u00e3o (sindicatos com at\u00e9 2.000 afiliados: 2 delegados da dire\u00e7\u00e3o e 3 de base; com at\u00e9 10.000: 3 e 5 etc.) assegurou-lhe uma concorr\u00eancia nutrida, assim distribu\u00edda:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"353\" src=\"https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-23.00.13-1024x353.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-3789\" srcset=\"https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-23.00.13-1024x353.png 1024w, https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-23.00.13-300x103.png 300w, https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-23.00.13-768x265.png 768w, https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-23.00.13.png 1082w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Mais equilibrado em sua composi\u00e7\u00e3o que a 1\u00aa Conclat, o Conclat de S\u00e3o Bernardo duplicou a participa\u00e7\u00e3o do campo e dos funcion\u00e1rios p\u00fablicos, reduzindo-se um pouco o peso dos trabalhadores urbanos (sem que seja poss\u00edvel precisar o do proletariado industrial), enquanto via cair a dos \u00f3rg\u00e3os de c\u00fapula. Sua penetra\u00e7\u00e3o nacional \u00e9 mais uniforme que a da 1\u00aa Conclat e compat\u00edvel com a distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica dos trabalhadores assalariados, como se pode ver abaixo:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"320\" src=\"https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-23.00.36-1024x320.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-3790\" srcset=\"https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-23.00.36-1024x320.png 1024w, https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-23.00.36-300x94.png 300w, https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-23.00.36-768x240.png 768w, https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-23.00.36.png 1102w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Quatro dias depois do encerramento do Congresso de S\u00e3o Bernardo, a corrente da Unidade Sindical, constitu\u00edda em Comiss\u00e3o Organizadora, convoca o seu para os dias 4 e 6 de novembro, tendo como local Praia Grande. Incluindo entre suas resolu\u00e7\u00f5es quest\u00f5es program\u00e1ticas e organizativas, assim como um plano de lutas, e a cria\u00e7\u00e3o da Coordena\u00e7\u00e3o Nacional e do Conselho da Coordena\u00e7\u00e3o Nacional da Classe Trabalhadora (Conclat, ambos), o Conclat de Praia Grande contou com a presen\u00e7a de 4.234 delegados, em representa\u00e7\u00e3o de 1.243 entidades, assim distribu\u00eddas:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"341\" src=\"https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-23.03.46-1024x341.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-3791\" srcset=\"https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-23.03.46-1024x341.png 1024w, https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-23.03.46-300x100.png 300w, https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-23.03.46-768x256.png 768w, https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-23.03.46.png 1070w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>A representa\u00e7\u00e3o por atividades econ\u00f3micas, segundo a pr\u00f3pria CONCLAT, \u00e9 a seguinte:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"331\" src=\"https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-23.04.48-1024x331.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-3792\" srcset=\"https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-23.04.48-1024x331.png 1024w, https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-23.04.48-300x97.png 300w, https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-23.04.48-768x248.png 768w, https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-23.04.48.png 1082w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>A distribui\u00e7\u00e3o regional mostra o seguinte:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"328\" src=\"https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-23.05.56-1024x328.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-3793\" srcset=\"https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-23.05.56-1024x328.png 1024w, https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-23.05.56-300x96.png 300w, https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-23.05.56-768x246.png 768w, https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Captura-de-Pantalla-2022-08-19-a-las-23.05.56.png 1065w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Tomando como base as entidades, o Conclat de Praia Grande caracteriza-se pelo forte peso do sindicalismo agr\u00edcola (mais da metade do total) e uma incid\u00eancia significativa dos assalariados de servi\u00e7os (mais de 30%), ficando o proletariado industrial com uma presen\u00e7a equivalente \u00e0 quarta parte do total. A distribui\u00e7\u00e3o regional dos seus afiliados n\u00e3o difere notavelmente da que teve o Conclat de S\u00e3o Bernardo.<\/p>\n\n\n\n<p>No curso de 1984, a CUT deu demonstra\u00e7\u00e3o de atividades mais relevantes, realizando conquistas de posi\u00e7\u00f5es sindicais, que indicam ser o seu dinamismo maior que o da Conclat. Nesse ano, o fato novo e mais significativo no movimento oper\u00e1rio foram as mobiliza\u00e7\u00f5es grevistas dos trabalhadores agr\u00edcolas, principalmente os da cana-de-a\u00e7\u00facar, em S\u00e3o Paulo eno Nordeste. Tais greves foram relevantes pela irrup\u00e7\u00e3o dessa nova for\u00e7a nas lutas oper\u00e1rias, pela sua combatividade e pelo grau de viol\u00eancia empregada pelos patr\u00f5es e pela pol\u00edcia para cont\u00ea-las, saldando-se elas apesar disso comvit\u00f3rias. Em S\u00e3o Paulo, onde elas desbordaram a estrutura sindical, foi vis\u00edvel a penetra\u00e7\u00e3o da CUT nesse setor, que a Unidade Sindical monopolizara at\u00e9 ent\u00e3o. Junto a elas, conv\u00eam recordar a longa greve nacional dos professores universit\u00e1rios, as amea\u00e7as de greve geral banc\u00e1ria e as greves parciais dos funcion\u00e1rios da previd\u00eancia social, ao lado de a\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias isoladas.<\/p>\n\n\n\n<p>O contexto geral de relativa debilidade para os trabalhadores \u2013 afetados pela extens\u00e3o do desemprego \u2013 ea formid\u00e1vel campanha popular pelo estabelecimento das elei\u00e7\u00f5es diretas para a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica \u2013 em que se destacou pelo seu ativismo a pequena burguesia \u2013, a qual canalizou boa parte da atividade das massas, n\u00e3o fez do ano de 1984 o mais favor\u00e1vel para a plena retomada das lutas reivindicativas. \u00c9 de se supor, por\u00e9m, que, ap\u00f3s um per\u00edodo de tr\u00e9gua a ser concedido ao governo que assumir\u00e1 em mar\u00e7o deste ano e se este n\u00e3o for capaz de atender \u00e0s demandas mais sentidas dos trabalhadores, suas lutas recrudescer\u00e3o para alcan\u00e7ar n\u00edveis insuspeitados. A mobiliza\u00e7\u00e3o em que se encontram as distintas for\u00e7as \u2013 desde os oper\u00e1rios industriais at\u00e9 os trabalhadores agr\u00edcolas e os assalariados de classe m\u00e9dia \u2013, o n\u00edvel de organiza\u00e7\u00e3o j\u00e1 alcan\u00e7ado e o desenvolvimento de seu esp\u00edrito combativo configuram uma tend\u00eancia nesse sentido, que o classismo n\u00e3o comprometido com o governo s\u00f3 poder\u00e1 acentuar.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">9 \u2013 O socialismo<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\">Ao longo de seu desenvolvimento, o movimento oper\u00e1rio brasileiro p\u00f5e em evid\u00eancia as determina\u00e7\u00f5es profundas de que depende o seu curso e que conv\u00e9m reafirmar aqui. Destaca-se, em primeiro lugar, a rela\u00e7\u00e3o que ele guarda com a composi\u00e7\u00e3o e a estrutura da classe que ele expressa, caracter\u00edsticas que, por sua vez, resultam diretamente do volume e da dire\u00e7\u00e3o da acumula\u00e7\u00e3o de capital. \u00c9 o fato de que o pa\u00eds se industrializa que o converte num verdadeiro proletariado industrial, do mesmo modo que o leito pelo qual corre a industrializa\u00e7\u00e3o cria constantemente novos setores de trabalhadores, propicia mudan\u00e7as bruscas na lideran\u00e7a do movimento, ocupada primeiro pelos oper\u00e1rios gr\u00e1ficos e t\u00eaxteis, logo pelos oper\u00e1rios das empresas estatais e paraestatais e, finalmente, pelos trabalhadores das novas ind\u00fastrias dos anos 60 e 70, em especial a automobil\u00edstica. Esse processo acompanha-se de uma eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de instru\u00e7\u00e3o de seus efetivos e da substitui\u00e7\u00e3o de um padr\u00e3o de crescimento, baseado no recrutamento de m\u00e3o de obra rural, por outro, que implica dar prioridade \u00e0 incorpora\u00e7\u00e3o de membros com uma cultura urbana e industrial, particularmente nos ramos em que se acentua o progresso t\u00e9cnico.<\/p>\n\n\n\n<p>Paralelamente a esse processo, assiste-se, a partir dos anos 60, \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o da m\u00e3o-de-obra semiassalariada do campo em aut\u00eantico proletariado, cada vez mais urbano (j\u00e1 que se v\u00ea for\u00e7ado a abandonar o meio rural para alojar-se na periferia das cidades, de onde sai a trabalhar na agricultura) e que emerge, nesta primeira metade da d\u00e9cada de 1980, disposto a \u2013 lutando por seus direitos \u2013 ocupar o lugar que lhe cabe dentro do movimento oper\u00e1rio. O aumento do peso e da influ\u00eancia do proletariado rural est\u00e1 diretamente ligado \u00e0 participa\u00e7\u00e3o que teve na crise brasileira a alta dos pre\u00e7os do petr\u00f3leo e o subsequente lan\u00e7amento do programa do \u00e1lcool, destacando-se em suas fileiras os trabalhadores da cana-de-a\u00e7\u00facar. Esses novos contingentes prolet\u00e1rios n\u00e3o repetem a experi\u00eancia da massa rural convertida em operariado industrial, nos princ\u00edpios da industrializa\u00e7\u00e3o, na medida em que encontra j\u00e1, no plano da luta de classes, um proletariado industrial com tradi\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00e3o e de luta; exige, por\u00e9m, por sua juventude como classe e seu n\u00edvel cultural mais baixo, uma maior capacidade de condu\u00e7\u00e3o da vanguarda oper\u00e1ria, j\u00e1 que aceita mais facilmente as manobras dos \u201cpelegos\u201d e dos agentes da burguesia dentro do movimento oper\u00e1rio, constituindo-se de fato, atual- mente, num dos pilares de sustenta\u00e7\u00e3o da Conclat. As greves de 1984 mostraram, entretanto, com clareza, que a for\u00e7a de suas reivindica\u00e7\u00f5es, tanto tempo postergadas, e sua combatividade levam-no a desbordar facilmente suas lideran\u00e7as tradicionais, sendo vis\u00edvel ent\u00e3o os progressos que fez a CUT no setor, pelo menos em S\u00e3o Paulo. O movimento oper\u00e1rio n\u00e3o se desenvolve apenas mediante o seu desdobramento em novos setores e categorias, mas tamb\u00e9m atrav\u00e9s da absor\u00e7\u00e3o de um n\u00famero crescente de trabalhadores, dentro de cada ramo. Com efeito, o car\u00e1ter de massa que tende a revestir as a\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias atualmente, a press\u00e3o pela democratiza\u00e7\u00e3o dos sindicatos, a cria\u00e7\u00e3o de novos e complexos mecanismos de vincula\u00e7\u00e3o entre dire\u00e7\u00f5es e bases est\u00e3o revelando uma participa\u00e7\u00e3o crescente dos trabalhadores em processos que, no passado, eram de compet\u00eancia das lideran\u00e7as. Isso conduz \u00e0 diversifica\u00e7\u00e3o de suas aspira\u00e7\u00f5es e reivindica\u00e7\u00f5es, para atender os interesses dos diferentes n\u00edveis e categorias de oper\u00e1rios involucrados na luta<sup>19<\/sup>, o que configura o enriquecimento e a matura\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia de classe \u2013 para o que influi tamb\u00e9m o pr\u00f3prio desenvolvimento sociocultural do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>O vigoroso crescimento da classe oper\u00e1ria brasileira e a pujan\u00e7a do movimento por ela criado conduziram, nos anos recentes, ao ressurgimento de uma ideologia e uma pr\u00e1tica classistas, quase esquecidos depois da gesta dos anos 10. Aquelas eram, por\u00e9m, fruto de um avan\u00e7o da consci\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s condi\u00e7\u00f5es reais do movimento oper\u00e1rio de ent\u00e3o e resultavam, como indicamos, da presen\u00e7a atuante dos imigrantes europeus no sindicalismo brasileiro. O classismo de hoje nasce do desenvolvimento org\u00e2nico do movimento oper\u00e1rio e das batalhas travadas pelas for\u00e7as de esquerda, no passado pr\u00f3ximo; nada colaborou tanto para faz\u00ea-lo poss\u00edvel como o desnudamento do car\u00e1ter de classe do Estado, operado em 1964. Rompendo com a tradi\u00e7\u00e3o do Estado Novo e do regime instaurado em 1946, a burguesia brasileira abandonou ent\u00e3o toda pretens\u00e3o de mascarar sua domina\u00e7\u00e3o de classe, preferindo apoi\u00e1-la nas baionetas. O proletariado brasileiro fez a experi\u00eancia amarga de enfrentar-se com um Estado inimigo e hostil e \u00e9 a consci\u00eancia disso que se exprime no classismo. Como ocorre com qualquer classe social nessas circunst\u00e2ncias, a classe oper\u00e1ria n\u00e3o foi iluminada de s\u00fabito pelo Divino Esp\u00edrito Santo, mas, antes, realiza trabalhosamente a tradu\u00e7\u00e3o dessa experi\u00eancia numa ideologia e numa pr\u00e1tica pr\u00f3prias. \u00c9 natural, pois, que amplos setores dela \u2013 possivelmente ainda a maioria, particularmente pelo peso do proletariado rural \u2013 continuem sofrendo a presen\u00e7a de lideran\u00e7as atrasadas e corruptas, que se engenham para mant\u00ea-la atrelada \u00e0 burguesia e subordinada ao Estado. A experi\u00eancia vivida pelo proletariado brasileiro durante o regime militar e o fato de que ele tenha dado origem a uma corrente classista significam, por\u00e9m, que a ruptura buscada desde os anos 50 teve enfim lugar e que uma nova din\u00e2mica, mais rica e mais fecunda, come\u00e7ou. Mais cedo do que tarde, essa din\u00e2mica dar\u00e1 seus frutos.<\/p>\n\n\n\n<p>O maior problema que o classismo enfrenta hoje nasce dele mesmo e reside na tend\u00eancia que nele se verifica de resvalar para o obreirismo. Resultado da falta de cultura pol\u00edtica da vanguarda oper\u00e1ria e da m\u00e1 assimila\u00e7\u00e3o que os quadros de extra\u00e7\u00e3o pequeno-burguesa fizeram das experi\u00eancias da esquerda brasileira, a fins dos 60 e princ\u00edpios dos 70, o obreirismo amea\u00e7a a classe oper\u00e1ria com o pior que lhe podia suceder: o seu isolamento. Efetivamente, qualquer avan\u00e7o da classe oper\u00e1ria est\u00e1 intimamente relacionado com o movimento das outras classes sociais, como nos mostra a hist\u00f3ria das lutas de classes no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>A\u00ed est\u00e1 a experi\u00eancia dos anos recentes, na qual \u2013 confirmando-se o que j\u00e1 se vira em 1959 e a princ\u00edpio dos 60 \u2013 a divis\u00e3o da burguesia favoreceu o avan\u00e7o do movimento oper\u00e1rio<sup>20<\/sup> e precipitou o decl\u00ednio da ditadura militar. \u00c9 certo que o processo tornou-se mais complexo, na medida em que a liquida\u00e7\u00e3o da ditadura acabou ligada a \u2013 e provavelmente determinada por \u2013 uma recomposi\u00e7\u00e3o do bloco burgu\u00eas, que se apresenta hoje outra vez unificado. Mas, por isso mesmo, \u00e9 necess\u00e1rio procurar os meios para romper esse bloco, tanto mais que a evolu\u00e7\u00e3o da burguesia brasileira indica que ela nunca pode permanecer unida muito tempo e que a situa\u00e7\u00e3o atual do pa\u00eds permite prever a curto prazo o recrudescimento das contradi\u00e7\u00f5es internas que ela parece haver momentaneamente superado.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais importante que a burguesia, por\u00e9m, para a classe oper\u00e1ria, \u00e9 a evolu\u00e7\u00e3o das classes m\u00e9dias assalariadas. Expandindo-se notavelmente durante as d\u00e9cadas de 60 e 70, elas tendem a converter-se, hoje, num verdadeiro proletariado de servi\u00e7os. Sua situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era essa, durante os 70; no contexto do desenvolvimento econ\u00f4mico propiciado pelo regime militar, elas cumpriam a fun\u00e7\u00e3o relevante de alimentar uma das esferas de circula\u00e7\u00e3o privilegiadas pelo esquema de reprodu\u00e7\u00e3o de capital \u2013 a esfera alta, constitu\u00edda pelo consumo suntu\u00e1rio, que se somava \u00e0 do com\u00e9rcio exterior e \u00e0 do consumo estatal para viabilizar a realiza\u00e7\u00e3o das mercadorias. Nesses termos, elas constitu\u00edam uma pequena burguesia privilegiada \u2013 independentemente de que suas condi\u00e7\u00f5es materiais de reprodu\u00e7\u00e3o houvessem sido j\u00e1 a\u00e7ambarcadas pelo capital, que as separava dos meios de produ\u00e7\u00e3o e de vida. Desde a crise de 1975, por\u00e9m, a terra come\u00e7ou a mover-se sob seus p\u00e9s. Os primeiros movimentos da economia do grande capital apontaram no sentido de restringir o consumo suntu\u00e1rio; embora essa tend\u00eancia tenha sido mascarada por movimentos contr\u00e1rios, a sua press\u00e3o foi suficientemente forte para que as classes m\u00e9dias ganhassem as ruas, j\u00e1 em 1977, com a campanha da anistia, e acentuassem sua oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura<sup>21<\/sup>. Com a crise de 1981, e particularmente depois de 1983, com a revis\u00e3o da pol\u00edtica salarial, a tend\u00eancia come\u00e7ou a operar plenamente, completando-se agora a proletariza\u00e7\u00e3o da pequena burguesia com sua pauperiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo leva a crer que n\u00e3o se trata de uma tend\u00eancia passageira e que, antes, uma eventual recupera\u00e7\u00e3o da economia brasileira reabilitar\u00e1 para o consumo suntu\u00e1rio apenas as camadas superiores da pequena burguesia, mantendo as demais niveladas ao proletariado. Como quer que seja, a rea\u00e7\u00e3o da pequena burguesia ante sua expuls\u00e3o do para\u00edso criado pelo \u201cmilagre econ\u00f3mico\u201d tem sido a de aproximar-se da classe oper\u00e1ria, nas formas de organiza\u00e7\u00e3o e nos m\u00e9todos de luta. Os sindicatos em que militam seus setores s\u00e3o hoje atuantes \u2013 em particular os dos banc\u00e1rios, m\u00e9dicos, funcion\u00e1rios e professores, especialmente os universit\u00e1rios \u2013 e as greves por eles protagonizadas nos \u00faltimos anos destacaram-se por seu n\u00famero e sua combatividade. Essa aproxima\u00e7\u00e3o \u2013 que a leva a participar tamb\u00e9m da divis\u00e3o do movimento oper\u00e1rio, embora ela tenda ainda a favorecer a corrente n\u00e3o-classista \u2013 \u00e9 necess\u00e1ria para a pequena burguesia, cuja posi\u00e7\u00e3o nas lutas reivindicativas \u00e9 naturalmente d\u00e9bil, mas refor\u00e7a consideravelmente o movimento oper\u00e1rio, particularmente porque n\u00e3o lhe abre simplesmente a possibilidade de uma alian\u00e7a de classe: abre-lhe a de incorporar efetivamente a si, sen\u00e3o toda, pelo menos parte significativa das classes m\u00e9dias como proletariado de servi\u00e7os \u2013 isto \u00e9, assalariados de servi\u00e7os com consci\u00eancia prolet\u00e1ria. E, de fato, s\u00f3 a luta de classes permite essa muta\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o pode ser concedida nem negada por decreto.<sup>22<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Desse processo, no qual ele cresce, se diversifica e se enriquece, ao mesmo tempo em que amplia o seu campo de alian\u00e7as e de assimila\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a outras classes, resulta com meridiana claridade que o movimento oper\u00e1rio n\u00e3o pode limitar seu ide\u00e1rio e sua pr\u00e1tica, em nome de um obreirismo estreito. A classe oper\u00e1ria est\u00e1 chamada a assumir em grau cada vez maior a iniciativa pol\u00edtica e levantar para o conjunto da sociedade uma alternativa \u00e0 depend\u00eancia, \u00e0 injusti\u00e7a social e \u00e0 opress\u00e3o estatal, consubstanciais \u00e0 solu\u00e7\u00e3o burguesa. Se os quadros mais l\u00facidos da burguesia e os mais male\u00e1veis da classe oper\u00e1ria s\u00e3o todos, hoje, vagamente socialistas ou caracterizadamente socialdemocratas \u00e9 porque sabem que o capitalismo brasileiro tem os seus dias contados e querem ganhar uns dias mais. Para desfazer os enganos que isso engendra, bastar\u00e1 que a classe oper\u00e1ria levante o seu programa pol\u00edtico e crie o instrumento capaz de lev\u00e1-lo a cabo \u2013 o seu partido.<\/p>\n\n\n\n<p>A corrente classista percebeu j\u00e1 isso, embora de maneira confusa. Sem definir um esquema claro de alian\u00e7as, sem delimitar com precis\u00e3o o campo da luta social e da luta pol\u00edtica, sem unificar as suas fra\u00e7\u00f5es dispersas em partidos criados artificialmente, sem vincular corretamente a luta de classes no pa\u00eds com a que se desenvolve no plano internacional, n\u00e3o foi ainda capaz de ocupar o lugar que \u00e9 seu, no Brasil de hoje. O desenvolvimento futuro do movimento oper\u00e1rio depende \u2013 tanto como da a\u00e7\u00e3o dos elementos objetivos anteriormente indicados \u2013 de que isso se fa\u00e7a, para que ele possa finalmente desdobrar-se num movimento socialista, em cujas fileiras as amplas maiorias encontrem inspira\u00e7\u00e3o e meios para construir enfim o pa\u00eds que lhes conv\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em><span class=\"has-inline-color has-nv-dark-bg-color\">Ruy Mauro Marini<\/span><\/em><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Notas<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>*Zona fabril de S\u00e3o Paulo: Santo Andr\u00e9, S\u00e3o Bernardo y San Caetano. [Ed.]<\/li><\/ul>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\"><li>Conforme Maria Herm\u00ednia Tavares de Almeida. \u201cNovas demandas, novos direitos: experi\u00eancias do sindicalismo da \u00faltima d\u00e9cada\u201d, Dados (Rio), 26-3, 1983, p. 265.<\/li><li>Mais que por institui\u00e7\u00f5es servis \u2013 que tamb\u00e9m foram transplantadas para o Brasil, durante a coloniza\u00e7\u00e3o \u2013 as rela\u00e7\u00f5es de trabalho no pa\u00eds sofreram forte influ\u00eancia do regime escravista. Entre os autores marxistas que chamaram a aten\u00e7\u00e3o para o fato, merece men\u00e7\u00e3o Caio Prado J\u00fanior; conforme seu livro: <em>A Revolu\u00e7\u00e3o Brasileira, <\/em>Brasiliense, S\u00e3o Paulo, 1966.<\/li><li>Esse per\u00edodo tem sido objeto de muitos estudos: o mais recente \u00e9 o de Ren\u00e9 Arnaud Dreyfuss, 1964: <em>a<\/em> <em>conquista do Estado, <\/em>Petr\u00f3polis (RJ), Vozes, 1981.<\/li><li>A pedra angular da pol\u00edtica salarial foi colocada j\u00e1 em 1964, pelo Programa de A\u00e7\u00e3o Econ\u00f4mica do Governo Castelo Branco, que fixara a seguinte norma: \u201cQue o sal\u00e1rio reajustado seja determinado de modo a igualar o sal\u00e1rio real m\u00e9dio vigente nos \u00faltimos 24 meses, multiplicado a seguir por um coeficiente que traduza o aumento de produtividade estimado para o ano anterior, <em>acrescido da provis\u00e3o para compensa\u00e7\u00f5es de res\u00edduos inflacion\u00e1rios porventura admitidos na programa\u00e7\u00e3o financeira do governo<\/em>\u201d(o grifo \u00e9 meu). Conforme Eduardo Matarazzo Suplicy, \u201cAlguns aspectos da pol\u00edtica salarial\u201d, <em>Revista de Administra\u00e7\u00e3o de Empresas <\/em>(Rio), (5) 14, setembro-outubro 1974, p. 32.<\/li><li>Conforme Suplicy, 1974..<\/li><li>Este ponto de vista tem sido contestado por alguns autores. Intervindo na discuss\u00e3o, Jo\u00e3o M. L. Saboia afirma, com raz\u00e3o, que, enquanto at\u00e9 o in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970, o sal\u00e1rio m\u00ednimo se confundia com a pr\u00f3pria taxa de sal\u00e1rio, atualmente ele tem servido de base para a negocia\u00e7\u00e3o de pisos salariais, cujos valores se situam em sua grande maioria bem pr\u00f3ximos ao sal\u00e1rio m\u00ednimo. Conforme seu artigo: <em>O sal\u00e1rio m\u00ednimo e a taxa de sal\u00e1rios na economia brasileira: novas evid\u00eancias, <\/em>Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Economia Industrial, Texto para Discuss\u00e3o n\u00b026, 1983, p. 49.<\/li><li>Ao promover a rotatividade da m\u00e3o-de-obra, o FGTS expande o ex\u00e9rcito industrial de reserva sob sua forma flutuante e atua diretamente sobre o n\u00edvel salarial. Como j\u00e1 foi observado, as empresas dispensam seus trabalhadores em v\u00e9speras do diss\u00eddio coletivo e os readmitem depois, ou contratam outros, com sal\u00e1rios mais baixos que os que obteriam atrav\u00e9s do acordo salarial; conforme Departamento Intersindical de Estat\u00edstica e Estudos Socioecon\u00f4micos (DIEESE), <em>O Fundo de Garantia e seu impacto no mercado de trabalho, <\/em>S\u00e3o Paulo, 1978. Investiga\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o Instituto de Pesquisas Econ\u00f4micas, da Universidade de S\u00e3o Paulo, revelou, para o ano de 1974, que a taxa m\u00e9dia global de rotatividade na ind\u00fastria automobil\u00edstica era de 72% e de 63% nos ramos el\u00e9trico-eletr\u00f4nico e metal\u00fargico, fen\u00f4meno que se acentuava na pequena e m\u00e9dia empresa; <em>Folha de S\u00e3o Paulo, <\/em>02.04.1978.<\/li><li>Com base em pesquisa que realizou em duas empresas automobil\u00edsticas de S\u00e3o Paulo, de 1974 a 1975, seu autor observa: \u201cCostuma-se argumentar que s\u00f3 oper\u00e1rios qualificados t\u00eam experi\u00eancia de trabalho industrial e vida urbana, mas a pesquisa constatou n\u00e3o ser este o caso\u201d, sustentando que \u201caos oper\u00e1rios inclu\u00eddos nas categorias de n\u00e3o-qualificados e semi-qualificados <em>n\u00e3o <\/em>faltava experi\u00eancia urbana e industrial\u201d. Sua amostra para a empresa em que centrou sua aten\u00e7\u00e3o estabelece uma propor\u00e7\u00e3o de 17,2% oper\u00e1rios qualificados, 56,9% semi-qualificados e 26,9% n\u00e3o-qualificados. V. John Humphrey, \u201cOper\u00e1rios da ind\u00fastria automobil\u00edstica no Brasil: novas tend\u00eancias no movimento trabalhista\u201d, <em>Estudos Cebrap, <\/em>23, janeiro-mar\u00e7o, 1978, p. 92-93. A distribui\u00e7\u00e3o dos trabalhadores no setor formal do Brasil por n\u00edvel de instru\u00e7\u00e3o, em 1976, mostrava que somente 2,6% eram constitu\u00eddos por analfabetos e n\u00e3o-declarados; os trabalhadores com alfabetiza\u00e7\u00e3o elementar representavam 5,9% do total, os que haviam cursado o 1\u00ba grau at\u00e9 a 5\u00aa e a 8\u00aa s\u00e9ries incompleta 11 % e os que contavam com o 1\u00ba grau completo 8,6%; os 20% restantes, com curso completo ou incompleto, escalonavam-se entre o 2\u00ba grau e o n\u00edvel superior. Conforme Jo\u00e3o M. L. Sab\u00f3ia, 1983.<\/li><li>Teresa Matos e Mariana Carvalho, \u201cEfeitos da Super-Explora\u00e7\u00e3o Sobre a Classe Oper\u00e1ria\u201d, <em>Brasil Socialista <\/em>(Lausanne), 3, julho 1975.<\/li><li>Humphrey, 1978, p. 100.<\/li><li>Suplicy, 1974, anexo II, tab. 1.<\/li><li>Suplicy, 1974, tab. 2. Utilizamos aqui o conceito corrente de produtividade.<\/li><li>O estudo \u00e9 de Edmar Bacha, cit. por Humphrey, 1978, p. 95. Os dados proporcionados Suplicy acusam uma queda de 6% na m\u00e9dia anual do sal\u00e1rio m\u00ednimo, entre 1966 e 1972.<\/li><li>Humphrey, 1978, p. 25-26.<\/li><li>Humprey, 1978, p. 27.<\/li><li>Dados sobre a amplitude das greves podem encontrar-se no artigo de M. H. Tavares de Almeida, j\u00e1 citado.<\/li><li>Uma boa an\u00e1lise dos efeitos dessa pol\u00edtica nos sal\u00e1rios e sua rela\u00e7\u00e3o com a infla\u00e7\u00e3o encontra-se no artigo de Paulo Vieira da Cunha: \u201cReajustes Salariais na Ind\u00fastria e a Lei Salarial de 1979: uma nota emp\u00edrica\u201d, <em>Dados <\/em>(Rio), 26-3, 1983, p. 291-312.<\/li><li>Estas informa\u00e7\u00f5es, como as que se seguem, foram tomadas de documentos e publica\u00e7\u00f5es sindicais, assim como dos eventos e organiza\u00e7\u00f5es mencionados, que s\u00f3 ser\u00e3o citados quando necess\u00e1rio.<\/li><li>A compara\u00e7\u00e3o das reivindica\u00e7\u00f5es inclu\u00eddas por tr\u00eas sindicatos (dos Metal\u00fargicos de S\u00e3o Bernardo, dos Metal\u00fargicos de S\u00e3o Paulo e dos Metal\u00fargicos de Santos, que participam das duas correntes do movimento sindical, nas suas negocia\u00e7\u00f5es coletivas) revela que as relativas aos sal\u00e1rios \u2013 que eram a maioria em 1970 (cerca de tr\u00eas quartas partes) \u2013 diminuem consideravelmente seu peso ao longo da d\u00e9cada, para chegar a representar apenas cerca de 10% do total, em 1981; em seu lugar, inserem-se reivindica\u00e7\u00f5es referentes \u00e0 pol\u00edtica social da empresa, \u00e0 situa\u00e7\u00e3o funcional, \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de trabalho e \u00e0s quest\u00f5es sindicais. Conforme dados apresentados por M. H. Tavares de Almeida, 1983.<\/li><li>Um exemplo hist\u00f3rico not\u00e1vel neste sentido \u00e9 o modo como o enfrentamento entre a burguesia industrial e a burguesia agr\u00e1ria favorece, na Inglaterra do s\u00e9culo XIX, a ascens\u00e3o do primeiro movimento pol\u00edtico da classe oper\u00e1ria \u2013 o cartismo \u2013 e facilitou ao proletariado a obten\u00e7\u00e3o deconquistas significativas no plano da legisla\u00e7\u00e3o trabalhista, em particular com refer\u00eancia \u00e0 redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho. Conforme Marx, <em>O capital, <\/em>v. ed., Livro I, cap. VIII.<\/li><li>Conforme meu artigo \u201cEstado y Crisis en Brasil\u201d, <em>Cuadernos pol\u00edticos <\/em>(M\u00e9xico), 13, julho-setembro 1977.<\/li><li>Como o fizeram, em sentido divergente, dois estudiosos marxistas, Harry Braverman e Nicos Poulantzas, os quais, a partir da an\u00e1lise da posi\u00e7\u00e3o das classes no processo de produ\u00e7\u00e3o, optaram \u2013 o primeiro \u2013 por incluir na classe oper\u00e1ria todos os assalariados ou \u2013 o segundo \u2013 por circunscrever a classe oper\u00e1ria exclusivamente aos produtores diretos de mais-valia; conforme respectivamente, <em>Labour and monopoly Capital, <\/em>Monthly review, N. York e <em>Les classes sociales, <\/em>Maspero, Paris. A posi\u00e7\u00e3o dos dois autores tinha sobretudo uma motiva\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, Braverman procurando fundamentar na an\u00e1lise marxista o populismo mao\u00edsta e Poulantzas buscando demonstrar o car\u00e1ter minorit\u00e1rio da classe oper\u00e1ria para justificar o abandono de uma pol\u00edtica classista por parte do Partido Comunista Franc\u00eas, embarcado ent\u00e3o na aventura eurocomunista. Teoricamente, nenhuma das duas posi\u00e7\u00f5es pode apoiar-se realmente em Marx, o erro de ambas consistindo em tomar as categorias econ\u00f4micas de trabalho produtivo e improdutivo por categorias sociol\u00f3gicas. Sobre o alcance e os limites da an\u00e1lise econ\u00f4mica no estudo das classes sociais, veja-se, de Esthela Gutierrez, \u201cLa determinaci\u00f3n econ\u00f3mica de las classes sociales en el capitalismo\u201d, em S\u00e9rgio Bag\u00fa e outros. <em>Teor\u00eda marxista de las classes sociales, <\/em>Universidad Aut\u00f3noma Metropolitana, M\u00e9xico, 1983.<\/li><\/ol>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns has-2-columns has-desktop-oneTwo-layout has-tablet-equal-layout has-mobile-equal-layout has-default-gap has-vertical-unset\" id=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns-78bfedee\"><div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns-overlay\"><\/div><div class=\"innerblocks-wrap\">\n<div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-column\" id=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-column-c83ae97b\"><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-column\" id=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-column-3c638dde\"><\/div>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fuente: Publicado originalmente na revista Pol\u00edtica e administra\u00e7\u00e3o, N. 173, Rio de Janeiro, 1985. Republicado em espanhol, com tradu\u00e7\u00e3o de Francisco Cervantes, na revista Cuadernos Pol\u00edticos n. 46, Ediciones Era, M\u00e9xico D.F., abril-junio de&#46;&#46;&#46;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1815,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"_ti_tpc_template_sync":false,"_ti_tpc_template_id":"","footnotes":""},"categories":[99],"tags":[62,18,77],"class_list":["post-3783","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-varios","tag-62","tag-articulos","tag-brasil"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3783","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3783"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3783\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3807,"href":"https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3783\/revisions\/3807"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1815"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3783"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3783"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3783"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}