{"id":629,"date":"1992-01-07T04:35:18","date_gmt":"1992-01-07T04:35:18","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:8888\/wordpress\/?p=629"},"modified":"2022-03-08T04:27:15","modified_gmt":"2022-03-08T04:27:15","slug":"desenvolvimento-e-dependencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/?p=629","title":{"rendered":"Desenvolvimento e depend\u00eancia"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"http:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/bbbbbbbbfoto3_6-1024x576.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-2062\" srcset=\"https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/bbbbbbbbfoto3_6-1024x576.png 1024w, https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/bbbbbbbbfoto3_6-300x169.png 300w, https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/bbbbbbbbfoto3_6-768x432.png 768w, https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/bbbbbbbbfoto3_6-1536x864.png 1536w, https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/bbbbbbbbfoto3_6-600x338.png 600w, https:\/\/marini-escritos.unam.mx\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/bbbbbbbbfoto3_6.png 1600w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\">Fuente: Archivo de Ruy Mauro Marini con la anotaci\u00f3n: &#8220;Artigo publicado no\u00a0Correio Braziliense, (1992)&#8221;.<\/mark><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-text-color has-background has-vivid-red-background-color has-vivid-red-color\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\">A crise do socialismo europeu, a revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfico-t\u00e9cnica e a difus\u00e3o da doutrina neo-liberal puseram em xeque, nos anos 80, os pontos de refer\u00eancia de que se valiam os meios pol\u00edticos e intelectuais mais progressistas da Am\u00e9rica Latina para pensar o futuro da regi\u00e3o: os conceitos de desenvolvimento e de depend\u00eancia. Seu lugar \u00e9 ocupado hoje por palavras de ordem, entre as quais se destacam a economia de mercado, a inser\u00e7\u00e3o no processo mundial de globaliza\u00e7\u00e3o e a redu\u00e7\u00e3o do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>Os estudos sobre o desenvolvimento ganharam impulso depois da segunda guerra mundial, gra\u00e7as sobretudo ao progressivo e muitas vezes conflitivo processo de descoloniza\u00e7\u00e3o que ent\u00e3o se verifica. A maioria das na\u00e7\u00f5es do globo, muitas delas emergindo \u00e0 vida independente, toma consci\u00eancia do abismo que as separa de um grupo de pa\u00edses que concentram a riqueza material e o conhecimento cient\u00edfico-t\u00e9cnico. As tens\u00f5es que isso provoca nas rela\u00e7\u00f5es internacionais levam a que o organismo encarregado de disciplin\u00e1-las \u2014a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas\u2014 alente a elabora\u00e7\u00e3o de teorias destinadas a explicar e justificar essas disparidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Surgiram assim as comiss\u00f5es econ\u00f4micas regionais das Na\u00e7\u00f5es Unidas, das quais a mais atuante foi a da Am\u00e9rica Latina. A Cepal estabeleceu um esquema explicativo para o subdesenvolvimento que, fiel ao padr\u00e3o proporcionado pela ONU, o considerava como uma etapa pr\u00e9via ao desenvolvimento econ\u00f4mico pleno e (no que ia al\u00e9m do que pretendia a ONU) um resultado das transfer\u00eancias de valor realizadas no plano das rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas internacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>A chave dessas transfer\u00eancias, que descapitalizariam a regi\u00e3o e deprimiriam as condi\u00e7\u00f5es de vida de suas popula\u00e7\u00f5es, seria a troca de bens com baixo valor agregado, essencialmente mat\u00e9rias primas, por bens de maior valor agregado, de origem industrial. Em consequ\u00eancia, a Cepal preconizava uma pol\u00edtica de industrializa\u00e7\u00e3o, assegurada por um marcado protecionismo estatal. Sobre essa base, entrariam a resolver-se os problemas sociais e a instabilidade pol\u00edtica que caracterizam os nossos pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p>Reinando absoluta nos anos 50, a teoria desenvolvimentista da Cepal foi posta em xeque quando, a princ\u00edpios dos 60 e ap\u00f3s um grande esfor\u00e7o de industrializa\u00e7\u00e3o, os pa\u00edses latino-americanos mergulharam em uma grave crise econ\u00f4mica, que n\u00e3o tardou em dar lugar a perturba\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Foi nesse contexto que surgiram as ditaduras militares, que se davam como objetivo resolver os problemas econ\u00f4micos \u00e0 custa das liberdades pol\u00edticas. E foi tamb\u00e9m quando, insistindo sobretudo nos problemas financeiros e tecnol\u00f3gicos criados pela desnacionaliza\u00e7\u00e3o de nossas economias, se constituiu a teoria da depend\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Desenvolvimento e depend\u00eancia, tanto para a Cepal como para a teoria da depend\u00eancia, eram quest\u00f5es ligadas \u00e0 eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de vida das maiorias, \u00e0 defesa da democracia e das liberdades cidad\u00e3s e \u00e0 luta pela soberania nacional. As ideias que tomaram seu lugar preocupam-se principalmente com a competitividade empresarial, com a liberdade de a\u00e7\u00e3o dos capitais privados e com a integra\u00e7\u00e3o subordinada a algum dos blocos econ\u00f4micos que est\u00e3o construindo os grandes centros capitalistas.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1, por tr\u00e1s disso, realidades objetivas. Os bens de menor valor agregado, consistentes em produtos agr\u00edcolas ou minerais, que foram tradicionalmente os pontos fortes da Am\u00e9rica Latina, representam hoje cerca de um quarto do valor das transa\u00e7\u00f5es comerciais internacionais. As t\u00e9cnicas de produ\u00e7\u00e3o manufatureira que imperavam no mundo at\u00e9 a d\u00e9cada de 1970 e \u00e0s quais come\u00e7\u00e1vamos a aceder se modificaram drasticamente.<\/p>\n\n\n\n<p>A economia internacional passa atualmente por uma transforma\u00e7\u00e3o que resulta, no essencial, do not\u00e1vel avan\u00e7o da microeletr\u00f4nica, da aplica\u00e7\u00e3o da inform\u00e1tica ao processo de produ\u00e7\u00e3o, do desenvolvimento da ind\u00fastria aero-espacial e das telecomunica\u00e7\u00f5es, da fabrica\u00e7\u00e3o de novos materiais e das inova\u00e7\u00f5es que se est\u00e3o verificando no campo da biotecnologia. N\u00e3o participar dessa transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 aumentar o subdesenvolvimento, ampliando a brecha que nos separa das condi\u00e7\u00f5es em que produzem e vivem os povos do mundo desenvolvido. Mas, para ser parte dela, a Am\u00e9rica Latina necessita contar com capitais, capacidade para importar novas tecnologias, escalas de mercado e m\u00e3o-de-obra qualificada.<\/p>\n\n\n\n<p>Nossa depend\u00eancia nos tem, por\u00e9m, obrigado a seguir caminho inverso. Em dez anos, entre 1982 e 1991, por for\u00e7a da nossa d\u00edvida externa, realizamos uma transfer\u00eancia l\u00edquida de recursos ao exterior da ordem de 275 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Nossas exporta\u00e7\u00f5es aumentaram em um ter\u00e7o, nesse per\u00edodo, mas \u2014seja porque nossos produtos se vendem mal, seja porque as divisas angariadas foram usadas para transferir recursos ao exterior\u2014 nossa capacidade para importar, em termos per c\u00e1pita, se reduziu em 40%.<\/p>\n\n\n\n<p>A estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica em que se debateram quase todos os pa\u00edses da regi\u00e3o, no per\u00edodo, deprimiu nosso produto per c\u00e1pita em 9%, o que \u2014somado \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o da renda\u2014 tornou ainda menos din\u00e2mico o mercado interno. Os gastos em educa\u00e7\u00e3o e pesquisa n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o cresceram como, devido \u00e0s pol\u00edticas de austeridade postas em pr\u00e1tica (as quais incidiram fortemente sobre os gastos sociais do Estado), diminu\u00edram.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio um grande esfor\u00e7o para reverter essa situa\u00e7\u00e3o. Ele passa pela reuni\u00e3o de for\u00e7as, a fim de se ter o peso suficiente para influir nas decis\u00f5es internacionais. A integra\u00e7\u00e3o regional, como base para o relacionamento com os blocos econ\u00f4micos em forma\u00e7\u00e3o e com os organismos internacionais, \u00e9 por isso fundamental. No contexto da economia mundial contempor\u00e2nea, os projetos estritamente nacionais parecem j\u00e1 n\u00e3o ter cabida, sendo mister buscar a constitui\u00e7\u00e3o de entidades mais poderosas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o se pode fazer isso ingenuamente. A verdadeira integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel com a delega\u00e7\u00e3o de atribui\u00e7\u00f5es estatais a \u00f3rg\u00e3os supra-nacionais, em maior ou menor grau, desde a pol\u00edtica tarif\u00e1ria, monet\u00e1ria e fiscal, at\u00e9 as que se referem \u00e0s quest\u00f5es laborais, educacionais e culturais.<\/p>\n\n\n\n<p>A integra\u00e7\u00e3o latinoamericana, como arma principal na luta contra a depend\u00eancia e pelo desenvolvimento, n\u00e3o pode ser vista como algo que interessa somente ao governo, aos empres\u00e1rios e \u00e0 economia. Ela tem que ser entendida como uma grande empresa pol\u00edtica e cultural, capaz de convocar \u00e0 participa\u00e7\u00e3o ativa todos os setores do povo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Nota<\/strong>: Ruy Mauro Marini \u00e9 Pesquisador S\u00eanior Associado do Departamento de Ci\u00eancia Pol\u00edtica e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da Universidade de Bras\u00edlia e autor de&nbsp;<em>Am\u00e9rica Latina: depend\u00eancia e integra\u00e7\u00e3o<\/em>, S\u00e3o Paulo, Ed. Brasil Urgente, 1992.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em><span class=\"has-inline-color has-nv-dark-bg-color\">Ruy Mauro Marini<\/span><\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-text-color has-background\" style=\"background-color:#757575;color:#757575\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fuente: Archivo de Ruy Mauro Marini con la anotaci\u00f3n: &#8220;Artigo publicado no\u00a0Correio Braziliense, (1992)&#8221;. 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